sábado, 22 de novembro de 2014

SEISSEISSEIS


Eunice batia à porta sempre seis vezes, e sempre a mesma cara vinha abrir. Uma cara entreabria a porta e espreitava. Uma cara óssea e pequena, do tamanho de uma maçã grande. Os olhos escuros fixavam os dela, e repetiam sempre a mesma frase: estás enganada, bateste à porta errada, quem procuras não está cá, foge foge daqui JÁ! – e dito isto a cara acendia dois olhos e começava a gemer como uma cabra.
Eunice sabia que aquilo era um sonho, e que nada daquilo era real, mas não deixava de acordar sobressaltada e rezar logo seis avémarias e seis paisnossos. Era a madrugada de sexta feira treze, e andava a sonhar com aquela merda desde segunda, ou seja, mais uma vez e seria a sexta. Passou o resto do dia angustiada e à noite untou-se com azeite e alho e foi-se deitar toda nua, com o terço ao pescoço e a esperança de acordar no outro dia de manhã.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

TASCA


Anselmo volta para casa pela linha do comboio, a qual parece interromper-se debaixo dos seus pés. Às costas leva o acordeão cansado trazido da Guiné, dos tempos bons, de quando era novo. Sabe que quando chegar a casa, a menopausa da mulher não lhe vai dar tréguas, sabe que não vai ter o jantar à sua espera, sabe que vai dormir outra vez no sofá, e sabe que os filhos não vão estar em casa para aligeirar o serão. Os beijos antes de ir para a cama, as boas noites e os bons dias já deixaram de se dar há alguns anos. Mas ele nem sequer pensa nisso, não lhe faz falta, passa os dias anestesiado pelo álcool, pela bisca e pela tristeza.

EMIGRANTES


Hai-di olha o cargueiro a largar. Dentro deste, vários contentores coloridos e mudos carregam pesos variados. Dentro de um deles vai parte da sua família: O pai, e no seu bolso uma latinha com a mãe, extinta no ano anterior; o tio, um pouco mais novo, e os seus dois irmãos. São os homens que vão, nunca as mulheres. Espera-a uma vida a servir, a trabalhar de sol a sol, sem nunca ir à escola, sem nunca entrar no maravilhoso mundo que dizem haver dentro de cada livro. O ar há-de faltar dentro da caixa de chapa, por isso a jovem não sabe se a viagem deles vai ser defunta ou nascente. Apenas sabe que fica sem eles, e nem a bela paisagem a anima sob a sombra do seu chapeúzinho.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

LINHA AZUL


Farouk lia a última página do manual “salvação pelo suicídio”. A estação estava vazia, o que para ele era perfeito, pois era um homem tímido, recatado, e não queria cá público a ver o seu corpo separado no carril. Ao mesmo tempo, o maquinista Pereira vinha, sóbrio como um pepino, a gozar o seu primeiro dia no posto. Uma promoção bem merecida, pensava, já cá ando há uns anitos. Ao chegar ao apeadeiro, olhou por segundos para o pulso, a ver se estava a cumprir a rota ao segundo, e sentiu um pequeno solavanco que abrandou a máquina por uns segundos. Deve ser normal, pensou, deve ser o aviso para parar, e puxou a alavanca para trás.

domingo, 26 de outubro de 2014

A FUGA


Não havia palavras para descrever aquela imagem. Ela falava por si própria, em discurso bem sonoro. Foi em silêncio que a encontrei, escondida ao fundo das escadas. Escondido por uma árvore, espreitei-a por um breve momento. Ela espreitava, nervosa o fundo da rua, sem se deixar ver de lá. Atravessei a estrada e o seu rosto não se iluminou, como era costume. Apenas me pediu silêncio. Isso mesmo, o seu olhar mudo disse-me tudo sem trocarmos uma palavra. Por cima dela pairava o enorme peso de um matrimónio demasiado obeso. Ela, pelo contrário, era leve, por isso peguei nela e levei-a para casa. Agora ia ser minha, e havia de apagar cada ruga do seu rosto, até que o passado não fosse mais que um mero suspiro de alívio.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CARCAÇA


Era mesmo estúpida, o raio da velha. Sentou o cú gordo na cadeira de chapa verde e desatou a exigir rapidez, que estava com pressa, que tinha que fazer, que a sopa estava a ferver. Ostentando o ouro e o cabedal, babava-se a cada colher de sopa. Emborcou os dois salgadinhos, e dirigiu-se ao balcão. Ainda queria sobremesa mas o anfitrião omitiu-lha. Depois saiu, carregada de compras, como se nada fosse. Há pessoas assim, que julgam que estão acima das outras, e que o resto do mundo está constantemente ao seu serviço. Coitado do marido, se ainda o tem.

sábado, 11 de outubro de 2014

PATRIMÓNIO


Atento, Mamadu voltou atrás para buscar uma pedra de calçada, o martelo e o formão. Pois que ainda tinha que rebocar os blocos de cimento que o patrão o deixou a assentar de manhã, e não queria deixar nada por acabar. Sabia que ele regressava ao fim da tarde, obcecado pela perfeição, passava revista ao andar da obra, e era raro aquele que, não cumprindo o que lhe estava consignado, ficava impune ao castigo do Bigodes. Levantava o dedo calejado e apontava os erros, as falhas, as imperfeições, e tudo o que estava incompleto ou deficiente. E ele precisava do trabalho, ó como precisava, e do dinheiro ainda mais. O gajo pagava atrasado mas não falhava, e o emigrante mandava o soldo quase todo para a sua terra, onde não podia permitir que os seus filhos comessem pior do que ele.

OMIGO 2


De um modo geral, sempre prestei especial atenção ao que as pessoas dizem, pelo que me tocou quando um amigo que trabalhava na área financeira me confidenciou que andava frustrado porque na verdade não produzia nada. Especulação, pura e dura, sugando-lhe a alegria de viver. Nunca mais esqueci aquilo, e regozijou-me bastante quando o encontrei anos mais tarde e me revelou orgulhoso que se tornado produtor e actor de filmes pornográficos. Agora produz arte, a sétima, e produz também sémen suficiente para emprenhar um convento de freiras inteiro. Quem disse que uma pessoa não pode mudar a sua vida?

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

CARTA


Caro Júlio
Sei  bem o que sentes quando pensas em nós, em mim e depois no teu filho. Envio-te esta  fotografia propositadamente para que não o vejas crescer, e como vai mudando, parecendo-se sobretudo contigo. Há-de saber a vida toda que o pai é um tipo às direitas, mas que, para seu azar, não quis saber dele. Desisitiu, como se desiste de visitar um familiar muito velho num qualquer lar onde definha. Sò que ele não é um velho. Ele é uma criança com um potencial enorme que merecia carinho, cuidado, amor de pai. E até é isso que tem, só que não é do pai que eu escolhi para ele. Isso deixa-me ainda mais frustrada. Diabos te levem, Júlio.
Cumprimentos
Núria

VIRGEM

Virgem maria santíssima, gritou o homem, quando o leão meteu a pata de fora da jaula e decepou uma senhora idosa como se fosse uma galinha. Pegou atabalhoadamente na filha ao colo com um braço, noutro a bicicleta-agora-já-sem-rodinhas da miúda e desandou de imediato dali, deixando para trás os gritos horrorizados dos mirones das jaulas. Pousou a filha a umas centenas de metros e a bicicleta logo a seguir. Enquanto pedalava, fingia uma tranquilidade muda e cúmplice. Quando lhe pareceu que o pai já se tinha aquietado um pouco, perguntou-lhe:
- Pai, porque é que as pessoas fecham os animais em jaulas?

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

VIAGEM


Jerónimo costumava achar que era ali que começavam todas as viagens. Naquela entrada junto ao monte do Ti Manel. Punha-se ali sentado em cima duma pedra, um tipo de marco de propriedades. Imaginava que alguém havia de parar, por pena, solidariedade ou curiosidade, e convidá-lo-ia a entrar. Levava sempre os seus parcos pertences numa mochilita de juta, mais uma fisga no bolso, para o que desse e viesse. A mãe julgava-o na escola, e descansada, entregava-se à pinga, nos intervalos da lavoura. Mas ele não queria saber, o cabrão do professor não lhe havia de apanhar outra vez as suas pobres mãos com a régua de pinho. À hora do fim das aulas, regressava a casa resignado, mas nunca perdia a esperança. Amanhã alguém há-de parar.

TOUTIÇOS



Aos fachos, como-lhes os toutiços! É a frase que mais associo à revolução, pois era o que o Sandokan, o palrador amarelo do meu avô repetia incessantemente às visitas. Cunhal, o rafeiro companheiro, respondia com um ladrar progressista, via-se logo que solidário com as palavras do outro. Quando lá se calavam, já depois de jantar, ouvíamos no velho gravador de bobines as gravações dos capitães e das senhas, e no gramofone os hinos do Zeca. E orgulhávamo-nos de a casa dos avós ter sido refúgio de muitos activistas anti-regime.

sábado, 4 de outubro de 2014

RESILIÊNCIA






































Uma lutadora, sim senhor- afirmavam uns, aqueles que não a conheciam. Também os que desconheciam que ela não sabia fazer mais nada senão aquilo. Fazia-a sentir-se viva, uma e outra vez, como se o coração lhe parasse quando não dançava. Sozinha, a pares, em roda, em casa, no clube, na rua, sempre solta, tremelicava o corpo, como um cão que sacode a chuva, e aí começava ela a gingar ao som de qualquer que fosse a música. Pilhas que nunca acabavam. Até no hospital, onde lhe amputaram o braço infectado, fez questão de dar dois passos de dança com um enfermeiro e mais dois com o cirurgião, antes até de lhe passar o efeito da anestesia. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SERENATA

Sentado tocando seu acordeão, Anselmo parece não perceber as jovens que o observam da esplanada, e se calhar nem sequer ouve os seus piropos. Está concentradíssimo, e as notas saem-lhe com uma cadência extraordinária, conseguindo por vezes elaborar transições imperceptíveis entre temas, mantendo uma sonoridade contínua e inebriante. Tão focado está que nem consegue largar o instrumento ao ver passar a mulher dos seus sonhos. Os seus dedos parecem fundir-se com as teclas e os botanitos da máquina, e a própria música, sua madrasta, parece troçar dele, enquanto a sua vida se afasta pela calçada.

TSUNAMI 2


António sabia que este dia havia de chegar. Ouviu o ruído da onda gigante quando estava a acabar o pequeno almoço. Deu um beijo à mulher sem a acordar, enrolou calmamente um cigarro, vestiu o impermeável e saiu para a praia. Sabia também que não teria tempo de fugir, só pegar o triciclo levava-lhe pelo menos dez minutos. Acendeu o fumante e colocou-se de frente para o mar, feliz por morrer na sua terra, na sua praia.

TSUNAMI 1


Boa terra, um pouco salgada, bom turismo, um pouco esquecido. Gentes mais e menos humildes. A onda veio num Sàbado de manhã, apanhando de surpresa as pessoas na lota, no mercado, nos cafés, no paredão, nas hortas, nas tendas. Em vez de voltar para trás, como fazem de costume as ondas, esta veio e ficou, afogando tudo em vinte metros de água. Tudo ficou como era dantes, apenas com a diferença que se viam agora, aqui e ali, os cocurutos dos prédios mais altos, e os restos da ocupação. Os jornais falaram em tragédia de proporções épicas. O que é do mar, a ele há-de voltar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

MADALENA


A Cooperativa Piedense reabriu após uns anos de encerramento, e felizmente, que dá muito jeito à população envelhecida da Cova da Piedade. Hoje reparei no expositor do hall de entrada, e estive a ver fotografias de há muitos anos, a preto e branco. Sabendo que era lá que  a minha avó ia às compras, tive esperança de a encontrar naquelas imagens. Seria como vê-la viva outra vez, coxeando, quase cega, às apalpadelas pela rua acima, arrastando os érres, trazendo sempre qualquer miminho para o seu netinho. E agora, homem feito, escondo as lágrimas atrás dos óculos escuros enquanto escrevo.  Avó, como sinto a tua falta.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

ESPERA


Simão sabe que fez mal. Não devia ter assaltado aquela velhota no cais do Sodré. Agora de volta à sua margem, manietado por três populares e um contramestre, nem sequer pode tentar o desbordo, chegar à Trafaria a nado. Do outro lado encontra-se a carrinha da brigada, repleta de cassetetes aos quais não poderá fugir. Congemina já uma história o mais simples possível, do tipo, não tenho o que dar de comer aos meus filhos, ou a minha mulher gasta-me o dinheiro em bebida, ou ainda, estou a dever a um vizinho que me mata se não lhe pagar. Mas também já sabe que não lhe valerá de nada, pois tanto ele como as histórias já são por demais conhecidos dos agentes. Só espera que eles perguntem antes de bater, para ele se poder escusar, talvez atenue um bocadito: Simão sabe que fez mal.

CAÇADOR DE VAMPIROS


Vive em Almada, não vou dizer onde. Desenganem-se com seu aspecto frágil. Disfarçado de vendedor de alhos, carrega suas pesadas sacas, e apregoa a mercadoria em voz sonante: Olhó alho. Ainda nunca se viu nada, pois atrai os dentudos para becos sombrios, geralmente perto dos seus covis ou sedes partidárias, onde os empanturra com as cabeças do referido hortícola. Embora nada haja de concreto que o confirme, toda a gente desconfia, e lhe agradece, enquanto lhe compra também uns saquinhos para proteger os seus lares. É que se alguém se engana com seu ar sisudo, e lhes franqueia as portas à chegada, já se sabe o resultado.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

TURIVIEW

Hello Josep. I´ve been in Lisbon for a couple of days, while waiting for my flight to Amsterdam. It´s a very dirty town, everybody throws everything away. In fact, it probably is the most rat-friendly city I´ve ever visited. However, the people are very friendly, regardless of being unemployed,  most of them. What I found very odd, is that they keep on voting for the most corrupt to lead their future. That´s not very smart, is it? See you soon.
Joy

JUDAS




Os crucifixos ficaram espetados na areia. O vento e a areia taparam as gotas de sangue e suor, bem como as lágrimas, o mijo e o vómito. Pareciam veleiros  soterrados na praia solitária. A viúva olha agora o mar revolto. De pés juntos, jura vingança. Em Junho voltará com a família, para acertar contas com os traidores. E virá armada com a maior faca que encontrar, para levar a cabeça do tratante para a sua terra, onde a cozerão debaixo da terra, com batatas, couve e feijão.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

MARÉ


Deu à costa numa manhã de Domingo. As crianças da praia logo se reuniram em redor da estranha criatura, observando, tocando, mas com cautela. Sabiam que o mar trazia coisas esquisitas, e todo o cuidado era pouco. Não tardou que chegasse o chefe e organizasse os curiosos. Dispostos em semicírculo, cada um opinou sobe o que seria. Desde droga a brinquedos, passando por ficheiros secretos de fraudes bancárias, tudo se congeminou. Quem os visse ao longe, pensaria que não demorariam muito a desfazer o aglomerado de redes e panos, mas não. Deixaram-no tal qual estava e foram brincar, como sempre. O que o mar traz, a ele pertence, e para ele há-de voltar.

SURVIVOR


Chegou ao fim da sua jornada. De longe a mais difícil até hoje. Comeu de tudo, desde escorpiões a aranhas, passando por cobras, escaravelhos e alguns que nem soube identificar. O último caiu-lhe bastante mal, e havia já dois dias que vomitava repetidamente e perdia forças a cada metro que andava. Quando bateu à porta, o filho mais velho veio abrir, e amparou-o nos braços, já defunto.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

RATA


A sua casa tem muitas portas, muitas entradas e saídas. Tem mais tocas do que um coelho, mais túneis que uma toupeira, e é mais astuta que uma raposa. Vive do que os outros deitam fora, mas não se importa, considera-se até bastante feliz, na sociedade moderna de tudo se despojam os homens.  Do escuro da sarjeta, o animal espreita os passantes e espera a qualquer momento algo que caia ao chão para, nem que seja no intervalo das máquinas fumegantes que passam no alcatrão, ir a correr apropriar-se do farnel. Já ouviu dizer que há países distantes onde outras como ela são idolatradas, e lhes é concedida a pré-lavagem dos pratos dos restaurantes. Após o serviço, os empregados empilham as loiças nas traseiras, e é vê-las às centenas, amontoadas sobre os pratos. Sonha com esses sítios, enquanto espera pelos sobejos dos humanos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

FRANK


Chamavam-lhe Frankenstein, os funcionários do hospício. Desde a sua conturbada e compulsiva admissão  que decidira dar aos seus esbirros o maior trabalho possível. Havia de lhes fazer a vida negra, tivessem ou não culpa do seu internamento. Tanto lhe dava. Gritava a plenos pulmões desde que acordava até que se deitava, exausto e rouco. Recuperava forças, dormindo como uma pedra, e recomeçava pela madrugada. Quando o amordaçavam, para não perturbar os outros hóspedes, contorcia-se violentamente até chegarem os tipos maiores com as seringas. Inoculavam-lhe todo o tipo de sedativos legalmente permitidos, mas estranhamente pouco ou nenhum efeito lhe faziam. Talvez fosse genético, sim, devia ser isso, um tipo de imunidade superpoderosa aos anseolíticos herdada, por exemplo da sua avó Isilda, que constava desmanchar os homens lá da terra à porrada. Ou também podia ter sido do facto de a sua mãe ter passado a sua gravidez a trabalhar nas minas de cobre, constantemente imersa em águas contaminadas até às mamas. Após a sua última lobotomia, clinicamente urgente e inadiável, perdeu a voz. Os cabrões dos médicos encontraram uma forma de o calar. Como já não podia incomodar ninguém com barulho, escreveu uma surpreendente carta ao director, com cópia para o Ministério, e para o gabinete do assessor do secretário do presidente, onde eloquentemente explicava a sua situação, e em como a última cirurgia lhe tinha devolvido a total lucidez, e se considerava completamente recuperado e pronto para regressar à vida em sociedade. O despacho foi dado, o pedido deferido e o homem libertado. Faustino, o Frankenstein dorme na rua, e espalha a sua mensagem nas paredes caladas da cidade.

PIQUENIQUE


D. Ifigénia chegou carregada com os taparuéres e os termos repletos de croquetes, rissóis e panadinhos acabados de fazer. As raparigas tagarelavam animadas, e nem deram pela sua presença. Discutiam a idade ideal para perder a virgindade, e qual a melhor altura para voltar a achá-la, de preferência uns dias antes de casarem. Uma afirmava conhecer um hospital que lhes restituiria a pureza mediante o pagamento de chorudos honorários, outra dizia que bastava mentir, outra que o molho de tomate na consistência certa e no momento indicado serviria muito bem. Outra não ligava a mínima à conversa, e a outra desconversava, puxando assuntos triviais, como a origem da vida, ou as virtudes  de praticar o bem. Quando pediram a opinião da avó, ela respondeu-lhes que era de outros tempos e que até tinha uma vizinha que tinha um atestado de virgindade passado pelo hospital. Antigamente havia decoro e as mulheres guardavam-se para o amor da sua vida. A neta mais atrevida perguntou-lhe se já tinha tido orgasmos. Ela disse que sim, há muito tempo, mas que o médico, o bom Dr Reboxo, lhe tinha curado isso com uma loção da qual já não se lembrava do nome.

sábado, 6 de setembro de 2014

GLH


As lojas estavam a fechar e o homem não se ia embora. De nariz encostado ao vidro, admirava as clientes do salão de beleza. Em breve alguém chamaria a polícia.
E que está o senhor aqui a fazer, perguntaria o agente.
Nada.
Então desande daqui, se faz favor.
Mas não estou a fazer nada de mal, estou só a olhar, o olhar não tira pedaço.
Depende, obstou o agente, depende do resguardo que as senhoras queiram manter. O direito á privacidade, percebe?
Percebo muito bem, senhor agente, então e o meu direito à liberdade e à livre circulação? Não sou nenhum tarado, estou simplesmente a ver.
Mostre-me então os seus documentos, por favor. O homem revistou os bolsos e revirou-os. Vazios. Não tenho, sou sem abrigo.
Então e a sua identificação?
Não tenho, já lhe disse.
O polícia começava a perder a paciência e endureceu o discurso. Tem que andar com a sua identificação.
Não tenho nada, fui assaltado.
Onde mora?
Não tenho casa, já lho tinha dito.
Como se chama?
Jesus de Nazaré.
A sério?
Não, estava a brincar, que interessa o nome que lhe dou?
É obrigatório ter um nome. Eu diria até que é um direito.
Pois olhe, senhor agente, eu não tenho casa, não tenho emprego, não tenho família, não tenho documentos, e deixei de ter nome. E ainda por cima, estou quase a deixar de ter cabelo.
Ah, sim, exclamou o polícia, tirando a boina, pois olhe que há um spray muito bom para isso, olhe aqui, e baixou a cabeça, mostrando uma calvície disfarçada com o que parecia tinta castanho escura.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

COMO ÁGUA


 
Respondo-lhe em forma de carta, caro amigo. Gostaria de saber se, ao chamar-me ordinário, me está a insultar pessoalmente, ou se está a referir-se às nossas publicações. Considerando que a mais plausível é a segunda opção, pois nunca lhe dei confiança para a primeira, gostaria de saber se considera as mesmas provocatórias ou simplesmente vulgares?
 Devo desde já informá-lo de que dispomos de autorização do MAI (Ministério dos Assuntos Irrelevantes) para abordar temáticas e assuntos de alta irrelevância nacional, como as disputas intrapartidárias ou as fraquezas neurológicas do Senhor Presidente, e também de que temos na nossa equipa um conjunto de advogados reformados dotados de um conjunto de competências particulares, que lhe trarão certamente muitos dissabores caso persista na sua intenção de difamar o nosso trabalho. Os nossos melhores cumprimentos à sua mãezinha.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

MELHOR AMIGO

Há já algum tempo que Paulo tomara a decisão de desaparecer por uns tempos. A complexa trama em que a sua vida se havia tornado não lhe deixava muitas hipóteses, e desgastara-o de tal forma que deixou, primeiro de trabalhar, depois de comer, depois de falar. Não estava doente, apesar da ausência de nutrientes, o que lhe parecia também pouco normal. Quando não se come, a tendência geral é para a enfermidade. Mas não ele. O seu corpo, bem como a sua mente, suportavam sem grande dificuldade a falta de refeições. Fora isto que o levara a comparar-se com Cristo, ou Siddartha, e a ter considerado ainda tornar-se peregrino, ideia que logo deixou cair pelo esforço que isso representaria. Além disso, não estava interessado em conhecer novas paragens ou pessoas. Nem as que conhecia lhe interessava ver.

Tinha-se afastado de quase tudo e todos, como de uma moléstia. De todos, à excepção do seu cão, Fu Manchu, a quem tratava carinhosamente por Fu, e quando a coisa azedava e tinha que o repreender, por Fu Manchu (um pouco como fazia a sua mãe, quando o tentava disciplinar).

Fu mantinha-o vivo com a pureza original canina que todos conhecem. A verdadeira dedicação, alguma comida e um pouco de atenção.

 



E-SHOPPING


Atónito, o carteiro, retirou com cuidado o pacote da sua scooter, desligando-a em seguida. Era preto, cor que nada é mas que tudo oculta. Assim era também a encomenda. Cilíndrica, com um braço de comprimento, estava por demais bem embalada em papel ébano. Sabia bem o que continha, e conhecia tão bem a destinatária. Tocou à porta e esperou. Pouco. A porta entreabriu-se e da penumbra uma voz sussurrou:
- Entra, Atónito, estava à tua espera.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

DARWIN


Havia um sítio no meio da cidade onde o progresso ainda não tinha chegado. Lá, os pássaros ainda sabiam onde poisar, e tinham a certeza quase absoluta de que as suas crias ainda estariam no ninho quando voltavam da busca de alimento. Lá, o orvalho matinal escorregava pelas vias normais, e os besouros caiam dos ramos sem se magoarem. Os catrapilas chegaram um dia e arrasaram tudo, e os capitalistas ali construíram suas moradias de luxo. Deixaram um par de árvores, para amostra. Os pássaros fugiram e os besouros evoluíram, pois deixaram de ter predadores e tiveram que passar a equilibrar-se melhor pois os que caiam quebravam as carapaças no asfalto. A população de besouros cresceu, colonizando secretamente o grosso interior dos troncos, comendo e copulando sem parar, até não haver espaço para mais. No dia em que a fina casca exterior cedeu, uma enorme nuvem de besouros caiu sobre a estrada, provocando uma colisão em cadeia sem feridos graves, mas com avultados danos materiais. As seguradoras tiveram enorme prejuízos e tiveram que despedir alguns trabalhadores, os quais se juntaram um dia em frente a um edifício-sede e apedrejaram as janelas com blocos da calçada. Um dos diretores da empresa veio à janela e cuspiu cá para baixo, comentando com os cudirectores: malditos insectos!
A escarreta acertou num director da PSP, que imediatamente deu ordem de prisão ao director, e que lhe dessem uns tabefes.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ANACONDA


As suas amigas voltaram-se cada uma para seu lado, deixando-a entregue aos seus pensamentos. Com certeza já não estavam para a ouvir lamentar-se da vida, da dieta, do trabalho. E ela pensava, espremendo uma borbulha e olhando a Cristo na melhor margem do rio: O Júlio deixou-me, o Zé traiu-me, o Nuno trocou-me por um homem. Merda, quem me dera ser a Nicky Minaj. https://www.youtube.com/watch?v=LDZX4ooRsWs

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O GUARDIÃO


 
- O que é que queres, ó filho da puta, vais ver que vou aí abaixo e dou-te cabo dos cornos, ó cabrão! Volta mas é prá pocilga donde viestes, lá pró pé da porca da tua da mãe, e do boi do teu pai. Vai pó caralho senão inda levas com um vaso na cabeça! À merda, pá!
Era geralmente assim que o Sousa, diligente porteiro da residência familiar expulsava os indesejáveis vendedores, porteiros, cobradores, e outros da mesma raça. Era o mais novo de sete irmãos, todos doutores menos ele. A moleirinha não lhe deu para mais do que a quarta classe mal tirada, mas em desembaraço e língua ninguém se lhe comparava. Depois da última passagem por Custóias, por ter insultado um cabo da gnr, os manos e as respectivas e mui respeitosas esposas concordaram em deixá-lo viver com eles, num quarto de arrumos, e encarregá-lo de vigiar as entradas e saídas, bem como de todos os trabalhos de manutenção e bricolagem. Vigiava da varanda dia e noite, e não passava um dia sem que ele cumprimentasse alguém à sua maneira muito peculiar, e era ali no bairro bem ou mal conhecido por isso, consoante o ponto de vista.
- Entra lá e despacha-te a deixar o correio, ó meu paneleiro de merda, e põe-te logo a milhas, qu´isto aqui é a casa dos Sousa, gente fina, ó cabrão! Ouviste?

EXPERIÊNCIA

Virgílio sentia-se já um bocado arrependido de ter abordado a velha. Não é que ele também não o fosse, mas ela era de longe mais chata e persistente, para além de uma excelente negociadora. São quarenta euros, dizia terminantemente a mulher. Ele arregalava os olhos e negava com a cabeça, é muito. Muito, olhe a qualidade do material, isto é de alto galarito. O homem sobreolhava guloso a jovem de calção curto. Vá, ande lá, que se faz tarde, quer ou não quer, o asseio é do melhor. Já cansado de regatear, remexeu no bolso, a ver se tinha que chegue, e tinha. Tá bem, concluiu. Deram o braço como dois namorados, e entraram na pensão do fim da rua, um a coxear, outro a arrastar a perna esquerda.


PAN-O-RAMA


 O homem de barbas brancas deu por isso, e gritava agora como um louco, apontando para mim. Foi ele, foi ele, foi ele! Olhei para o lado, e procurei disfarçar. Eu safava-me, eu ia-me safar, não era a primeira nem seria a última vez que roubava algo numa feira. A bófia varria já o recinto, começando pela entrada. Podia ver os bastões sobrevoando as cabeças, e os baques surdos do embate craniano. Ossos a estalar, dentes a saltar, o branco esmalte confundindo-se com a calçada, e os velhos procurando as dentaduras pelo chão. O africano apressou-se a guardar os artefactos da sua longínqua terra, e ajoelhou-se no chão, dali já não conseguia fugir, ia apanhar como os outros. Os ciganos, pelo contrário, sentavam-se descontraidamente e acendiam cigarros, aproveitando a confusão para fazer uma pausa na sua berraria. Quando o esquadrão passou por nós, aconcheguei-me mais ao peito do meu pai, que retribuiu com um ajeitar do meu capuz. Obrigado, papá.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

DESAJUSTE


 
Nenhum dos rapazes fez o que os pais esperavam. Não estudavam para médicos, engenheiros, arquitectos, padres, nem sequer para professores. Estavam todos numa escola esquisita, num bairro velho e degradado, onde os professores não usavam gravata e falavam com os alunos de igual para igual. Havia até um que nas primeiras aulas lambia ostensivamente o giz dos dedos, até que alguém lhe perguntasse porque o fazia, e daí se partisse para uma discussão sobre manias pouco ortodoxas. Os pais repreendiam-nos quando chegavam a casa, invariavelmente fora de horas e anestesiados. Não muito, para eles o suficiente para ainda aproveitarem para, no conforto dos seus quartos, comporem ou escreverem mais uma coisita, aproveitar a ampliação dos sentidos. E ganhavam uns troquitos na rua, a alegrar as pessoas com a sua arte, perante o olhar reprovador de algumas mães mais conservadoras.

SENHORINHA



A mãe desapareceu sem que ela desse por isso. Via apenas a bainha dos casacos das pessoas que passavam, ocupadas e apressadas. Sem chorar, escolheu uma direcção e levantou bem a cabeça, e andando com pose de senhorinha, avançou pelo meio dos transeuntes. A rua era pedestre, pelo que ainda não tinha que se preocupar com os carros, ao menos isso. E andou para cima e para baixo toda a manhã e toda a tarde, sem que a mãe desse sinal de vida. Não percebia muito bem porque é que a mãe ainda não a tinha encontrado. Lembrava-se da discussão da noite anterior, onde ela e o pai gritaram muito, e onde a falta de dinheiro foi o tema central. O pai dormiu no sofá e saiu ainda de madrugada, de mochila às costas, sem se despedir dela. Começava já a ter fome, mas nada de especial, já estava habituada a comer só uma vez por dia, geralmente em casa da vizinha Luísa, que morava no andar de baixo e tinha um cão chamado pouco, muito bonito e nada desconfiado. Decidiu entrar numa loja cuja montra estava repleta de lindos chapéus, parecidos com os que a vizinha Luisa usava. Talvez o senhor da loja tivesse pena dela e lhe oferecesse um.





O BAILARINO


A reforma que foi buscar aos correios deu-lhe para comprar uns óculos escuros, um casaco e uns sapatos novos, que os últimos já não aguentavam mais remendos. E para mais nada. Ao menos ia bem vestido. O que ia comer no resto do mês logo se veria, um dia em casa da filha, outro na vizinha do lado, outro fiado na tasca do Manel. O que importava agora é que ia bem posto. O baile no centro de dia começava daí a pouco, e as matronas esperavam já por ele, sentadas nas poltronas de napa vermelha. Havia quem dissesse que ele era o melhor dançarino lá da terra, e talvez fosse. Com o maior dos respeitos, tirava-as para o meio da sala e guiava-as, mantendo a distância dos braços, que para encostos não havia muita receptividade. E algumas sonhavam com ele sem ele saber, que as levava a viajar por terras distantes, onde as pessoas se vestiam com túnicas, e os mercados se inundavam com cheiros e cores estranhas.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O HOMEM BALA


 
Celestino via ao longe o hábil mergulhão com a mulher bem mais jovem. O gajo esmerara-se no salto, arqueando o dorso, fazendo por mostrar que ainda lhe restava alguma virilidade, nem que fosse à custa de fazer figura de parvo, ganhar uma hérnia, um hematoma na testa, ou as três juntas. Ele, pelo contrário, não faria qualquer esforço para adornar o seu mergulho, nem tampouco lhe interessava acertar na água, antes pelo contrário. Veio ali para se atirar de cabeça contra as rochas, de forma o mais desajeitada possível. O objectivo, no fundo, até era parecido, o de dar nas vistas, e impressionar alguém. A forma ou a estética é que diferia. Ele esperava chocar os passantes com a forma como a sua proeminente cabeça se esmagaria contra os blocos como uma melancia. Não veria as fotos nos jornais, mas com certeza que a sua ex o faria. E havia de amargar os longos interrogatórios na esquadra e na liga de amigos dos animais, por a sua casa se encontrar cheia de ratos mortos. Toma!

UNDERCOVER


 
Omem encostou-se junto ao quiosque ainda fechado, conforme as instruções recebidas por e-mail na noite anterior. Aguardava descontraidamente o sms que lhe daria o sinal para avançar.
Dissimulada com extremo cuidado na bainha anterior das cuecas, a arma aguardava pacientemente o dedo do dono. Carregada e destrancada, para ser mais rápida e polida para ser mais bela, ansiava ser manipulada por mãos fortes, hábeis e enluvadas. Embora de nacionalidade chinesa, compreendia bem as razões que estavam prestes a fazê-la entrar em acção. Os infiéis tinham uma factura a pagar, e não era ela que iria obstar a cobrança da mesma. Ao fim e ao cabo, era para isso que existia, para corrigir desigualdades, para equilibrar balanças. Olho por olho, dente por dente.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

IMPASSE

 
Temos que decidir antes de anoitecer, disse o velho para a mulher, enquanto acompanhava discretamente os tornozelos da moçoila que acabara de passar por eles. O sol estava forte e dificultava-lhes o raciocínio.
É verdade que ela sempre foi boa filha, retorquiu a septuagenária, boa para nós, sempre nos visitou, sempre nos tratou bem.
Sim, murmurou o marido, até nos ajudou quando nos cortaram na reforma, lembras-te?
Então não lembro, lembro sim senhor, e acenou passados uns segundos, como que a reforçar a si mesma a afirmação.
Pois, não estava era à espera era que ela virasse...
Virasse o quê?
Tu sabes, aquilo, disse ela ainda mais baixo.
À pois, aquilo.
Mas suponho que se elas se gostam, não faz mal, não achas?
Ele respondeu com silêncio.
E o que fazemos, que diremos aos vizinhos quando elas vierem viver connosco?
Se.
Se o quê?
Se elas vierem viver connosco.
Pois.
Vários autocarros passaram sem que tomassem uma decisão. Assoberbados pela dupla revelação-pedido de guarida, tinham-se esquecido de tomar os comprimidos da manhã, e o seu pensar tornou-se cada vez menos ágil, como o esvaziar de um furo lento.