sábado, 22 de novembro de 2014

SEISSEISSEIS


Eunice batia à porta sempre seis vezes, e sempre a mesma cara vinha abrir. Uma cara entreabria a porta e espreitava. Uma cara óssea e pequena, do tamanho de uma maçã grande. Os olhos escuros fixavam os dela, e repetiam sempre a mesma frase: estás enganada, bateste à porta errada, quem procuras não está cá, foge foge daqui JÁ! – e dito isto a cara acendia dois olhos e começava a gemer como uma cabra.
Eunice sabia que aquilo era um sonho, e que nada daquilo era real, mas não deixava de acordar sobressaltada e rezar logo seis avémarias e seis paisnossos. Era a madrugada de sexta feira treze, e andava a sonhar com aquela merda desde segunda, ou seja, mais uma vez e seria a sexta. Passou o resto do dia angustiada e à noite untou-se com azeite e alho e foi-se deitar toda nua, com o terço ao pescoço e a esperança de acordar no outro dia de manhã.

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