O chef fritava, compenetrado, as bifanas do dia, quando ao
virar-se para tirar uma alheira já pronta, deu com um parzito de olhos a olhar
para ele do meio do petisco. Congelou, naquele momento. O suor em bica a
correr-lhe da testa sobre os olhos, talvez lhe causasse alucinações, pensou, ao
ver que o bichito o olhava fixamente nos olhos. Antigamente não teria hesitado
um segundo, e tê-lo-ia esmagado entre os dedos sem misericórdia. Mas desde que
visitou um parque de diversões na Alemanha, numa visita ao seu irmão emigrado,
e entrou numa diversão chamada maus au
chocolat, a sua perspectiva sobre os roedores caseiros mudara
completamente. Passou a sentir por eles uma afinidade imensa, de tal maneira
que jurou voltar lá um dia, a esse parque, e passar um dia inteiro a entrar e
sair naquela aventura virtual. Calhou também nesse mesmo ano ler um livro muito
engraçado do escritor Boris Vian, A espuma
dos dias, no qual a espécie roedora normalmente classificada como praga,
era afinal rainha e companheira. De forma que contemporizou, olhou por cima do
ombro, depois para o lado de fora da montra, e constatando que ninguém olhava
para ele, empurrou delicadamente com o indicador uma das alheiras semiratadas
na direcção do pequeno focinho dentuço. O ratito não se fez rogado, e
abocanhando o presente, lançou-lhe um olhar de aprovação, à laia de
despedida-até-mais-logo, e recuou para baixo da montra.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
quarta-feira, 20 de maio de 2015
MARIONETA
Às vezes conhecemos pessoas que nos agradam, que nos são
indiferentes, ou de quem não gostamos. O Marinho não encaixava em nenhuma
destas categorias. Sempre bêbado, nunca lhe vi um dia igual. Hoje bem disposto
e falador, envergonhando as pessoas na rua; Amanhã estará macambúzio, calado e
distante. Noutro dia ainda, uma mistura dos dois temperamentos. Às vezes
ouvia-o defender acerrimamente os direitos gays- dos barrons, como ele dizia- e
no dia a seguir queria matá-los a todos, que essa gente não prestava. Tanto
perdia uma tarde inteira a cortejar um farrusco com as suas mãos finas, como
pontapeava qualquer bicho que lhe aparecesse pela frente. Nunca soube o que
fazia, pois tanto parecia um doutor, calça vincada e camisa com gravata, como
um trolha, ou ainda um catequista- nestes dias envergava uns calções azuis
escuros e uma camisola branca de gola alta muito justa, e usava o cabelo penteado
para trás com risco ao meio. Não posso dizer que gostava dele nem que deixava
de gostar. Mas tão pouco me era indiferente. Era aliás muito difícil passar
despercebido. Deixei de o ver depois do vinte e cinco de Abril, ninguém sabe
para onde foi. Era um tipo estranho, o Marinho Marioneta.
CANIS VITAE
O velho deambulou toda a manhã pelas ruas do monte, a ver se
alguém lhe dava alguma coisita de comer. Alguns enxotaram-no, mas poucos. A
maior parte ignorou-o, como se fosse invisível. Pudera, que com o passar dos
anos, as maleitas que carregava- sobretudo a falta de dentes- despiram-no
completamente do seu ar feroz. Até os bichanos lhe perderam o respeito, e
olhavam para ele com desdém, que hoje em dia as pessoas parece que gostam mais
desses infiéis do que dos da sua espécie. Ou talvez não, talvez esteja
enganado, e seja só mais um dos pensamentos solitários que lhe assoberbam os
quadris enfraquecidos. De qualquer das formas, decidiu tentar acabar com a
vida. Dirigiu-se conscientemente para uma estrada que sabia ter maior movimento,
e esperou junto ao cruzamento. Quando viu ao longe o que lhe pareceu um
veículo, preparou-se para o fim. Quando lhe pareceu que era o momento, saltou
para o meio da estrada. Os pneus chiaram, e sentiu a morte a chegar
devagarinho. Quando abriu os olhos, deu com o nariz encostado ao plástico
cinzento do párachoque de um carro. Ouviu o dono sair lá de dentro, e dizer com
pena- coitadinho do cão, anda perdido, e uma voz de mulher- não anda nada, é
mas é um rafeiro aí da rua.
Com pena do bicho, o homem pegou-lhe, e ele suspirou de alívio e sorriu de contente. Talvez o levassem para uma casa, onde lhe dariam um banho quente e perfumado, e uma bela dose de trinca com umas farripas de carne. Neste pensamento ficou e adormeceu, até sentir o carro parar, e tudo acabar num ápice. Ouviu muitos cães a ladrar, dois homens a falar: Pronto, amigo, assine aqui, está entregue. E viu o sol aos quadradinhos até ao fim dos seus dias.
Com pena do bicho, o homem pegou-lhe, e ele suspirou de alívio e sorriu de contente. Talvez o levassem para uma casa, onde lhe dariam um banho quente e perfumado, e uma bela dose de trinca com umas farripas de carne. Neste pensamento ficou e adormeceu, até sentir o carro parar, e tudo acabar num ápice. Ouviu muitos cães a ladrar, dois homens a falar: Pronto, amigo, assine aqui, está entregue. E viu o sol aos quadradinhos até ao fim dos seus dias.
CABIDELA
Rodeada de pessoas que não conhecia, Doina avançou, como lhe
mandaram. Puxando uma mala que não era a sua, cheia de coisas que não eram as
suas coisas, deu por si a ter pensamentos que não eram seus, e pensou como seria bela, a ideia de fugir.
Apenas a ideia, sem nada mais a acompanhar. Um tipo de fantasia passageira,
como uma pequena constipação. Ainda lhe
pareceu ver a silhueta do namorado ao longe, passeando entre as carruagens,
cruzando-se com as silhuetas de outros jovens. Pareceu-lhe que dizia que não
com o dedo. Que não tentasse nada, que tinha mais a perder do que a ganhar. Mas
ganhou, um lugar mesmo à janela, cruelmente guardado para si. Para que pudesse
despedir-se melhor da sua terra, enquanto a máquina a puxava para longe de
tudo. E quando cruzou a fronteira para o país vizinho, foi como se a rasgassem
ao meio, e o seu sangue vertido num alguidar.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
CAMANÉ
Naquele dia alguém chamou a polícia. Algum vizinho, farto de
levar com o cheiro a fumo frio nos canos da casa de banho, ou algum amigo
invejoso que se fartou de não ser convidado. O Alberto foi à varanda e gritou
isso mesmo lá para dentro: Vem aí a polícia, Camané, refundam essa merda. Por
ser pedonal e ter postes no chão, os bófias subiam a rua a pé, e parecia nem
sequer virem muito depressa. Mas vinham lá a casa, de certeza.
Lesto, Alberto veio para dentro, e correu para a cozinha,
onde acendeu o fogão e pôs uma frigideira de óleo ao lume. Imperturbado com os
gritos do pessoal, aflito, a esconder tudo o que fosse substâncias ilegais,
tirou metodicamente os choquinhos do frigorífico e desatou a fritá-los mal o óleo
aqueceu, espirrando bancada, chão e paredes. Mas agora é que vais cozinhar,
caralho?, gritou indignado Camané, o dono da casa, enquanto escondia os
cachimbos dentro dos toalhões de banho. Alberto seguia pondo à mesa à pressa.
A campainha não tardou a tocar, e sentaram-se todos os
quatro, a saber, o Camané, o Velhinho, o Valentim, e a Marta, que agora se
começava a arrepender de ter vindo. Ligaram a televisão num canal generalista,
onde uma tipa qualquer berrava aos concorrentes umas perguntas sobre Geografia,
e fizeram os possíveis por se aprumar.
Quem acabou por ir abrir a porta, de avental à cintura, foi
o Alberto, com um copo de vinho tinto na mão. Boas noites dadas, os dois
agentes foram entrando e deram uma olhadela aos convivas. O Alberto fingiu ser
o dono da casa, e atraiu-os para a cozinha, de onde o fedor a fritos inundava o
resto da residência. Sentou-os à mesa com um copinho para cada um, serviu-lhe
choquinhos fritos com coentros e arroz de passas, e no final uma aguardente
velha. Passado meia hora, como se nada fosse, os polícias vieram dizer adeus à
sala, onde o grupo fingia extrema atenção ao questionário televisivo, e saíram.
Os amigos levantaram-se logo a seguir, ainda muito brancos e foram saudar o
amigo mais velho: Foda-se, Alberto, tu sabias mesmo o que estavas a fazer, ao
que este replicou que nem por isso, os últimos chocos tinham saído um bocado queimados.segunda-feira, 4 de maio de 2015
O LOPES
Quando o conheci, ele morava numa velha casa isolada, perto
dumas salinas quaisquer, e colecionava fachos na despensa da cozinha. Juntos
uns contra os outros, respiravam o suor alheio, como porcos. Mesmo
encarcerados, congeminavam sobre as formas de punição a dar aos comunas e
outros que tais. A personificação do mal, ao lado dos cereais, do presunto e do
sal.
E ele vivia para aquilo. Saìa à noite, descalço, para que
não lhe caçassem as pegadas, e arrastava-os à porrada lá para casa. Montava
grandes armadilhas para ursos, as quais eles pisavam, invariavelmente à razão
de meia dúzia por semana. Sim, porque ele também descansava. Ao domingo, depois
do pequeno almoço, deixava-lhes uma ração reforçada e sentava-se junto à
água, contemplando os reflexos até ao pôr do sol, coçando a barba rija, e raspando com as unhas a terra onde se sentava. A terra que era sua.
Depois veio a revolução, e com ela o fim da época de caça.
Arrumou a caçadeira e o porrete, mas deixou a chibata de rabo de boi, com a qual enxotou os
canalhas de lá para fora. Passou a andar calçado e sem medo pelas ruas, e ia às
adegas dos amigos beber um copo e falar de política. É verdade, até ele, que
até se estava a cagar para isso, que o que ele queria era dar cabo do canastro
aos pulhas do regime. Foi numa dessas visitas que o apanharam, com um tiro à
queima roupa. Correu atrás do carro preto ainda durante um par de quilómetros
sem o perder de vista, o que decerto deixou os mandados todos borrados, até que
caiu para o lado, sem mais sangue para sair. Deram mais tarde o seu nome a uma
praceta na zona nobre da cidade, onde os banqueiros e os seus comparsas contam
a sua história nos lanches de família, para
meter medo à criançada.
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