sexta-feira, 22 de maio de 2015

O CHEF

O chef fritava, compenetrado, as bifanas do dia, quando ao virar-se para tirar uma alheira já pronta, deu com um parzito de olhos a olhar para ele do meio do petisco. Congelou, naquele momento. O suor em bica a correr-lhe da testa sobre os olhos, talvez lhe causasse alucinações, pensou, ao ver que o bichito o olhava fixamente nos olhos. Antigamente não teria hesitado um segundo, e tê-lo-ia esmagado entre os dedos sem misericórdia. Mas desde que visitou um parque de diversões na Alemanha, numa visita ao seu irmão emigrado, e entrou numa diversão chamada maus au chocolat, a sua perspectiva sobre os roedores caseiros mudara completamente. Passou a sentir por eles uma afinidade imensa, de tal maneira que jurou voltar lá um dia, a esse parque, e passar um dia inteiro a entrar e sair naquela aventura virtual. Calhou também nesse mesmo ano ler um livro muito engraçado do escritor Boris Vian, A espuma dos dias, no qual a espécie roedora normalmente classificada como praga, era afinal rainha e companheira. De forma que contemporizou, olhou por cima do ombro, depois para o lado de fora da montra, e constatando que ninguém olhava para ele, empurrou delicadamente com o indicador uma das alheiras semiratadas na direcção do pequeno focinho dentuço. O ratito não se fez rogado, e abocanhando o presente, lançou-lhe um olhar de aprovação, à laia de despedida-até-mais-logo, e recuou para baixo da montra.

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