Quando o conheci, ele morava numa velha casa isolada, perto
dumas salinas quaisquer, e colecionava fachos na despensa da cozinha. Juntos
uns contra os outros, respiravam o suor alheio, como porcos. Mesmo
encarcerados, congeminavam sobre as formas de punição a dar aos comunas e
outros que tais. A personificação do mal, ao lado dos cereais, do presunto e do
sal.
E ele vivia para aquilo. Saìa à noite, descalço, para que
não lhe caçassem as pegadas, e arrastava-os à porrada lá para casa. Montava
grandes armadilhas para ursos, as quais eles pisavam, invariavelmente à razão
de meia dúzia por semana. Sim, porque ele também descansava. Ao domingo, depois
do pequeno almoço, deixava-lhes uma ração reforçada e sentava-se junto à
água, contemplando os reflexos até ao pôr do sol, coçando a barba rija, e raspando com as unhas a terra onde se sentava. A terra que era sua.
Depois veio a revolução, e com ela o fim da época de caça.
Arrumou a caçadeira e o porrete, mas deixou a chibata de rabo de boi, com a qual enxotou os
canalhas de lá para fora. Passou a andar calçado e sem medo pelas ruas, e ia às
adegas dos amigos beber um copo e falar de política. É verdade, até ele, que
até se estava a cagar para isso, que o que ele queria era dar cabo do canastro
aos pulhas do regime. Foi numa dessas visitas que o apanharam, com um tiro à
queima roupa. Correu atrás do carro preto ainda durante um par de quilómetros
sem o perder de vista, o que decerto deixou os mandados todos borrados, até que
caiu para o lado, sem mais sangue para sair. Deram mais tarde o seu nome a uma
praceta na zona nobre da cidade, onde os banqueiros e os seus comparsas contam
a sua história nos lanches de família, para
meter medo à criançada.

Deixa-me cá espreitar ali a despensa, por via das dúvidas :D
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