segunda-feira, 4 de maio de 2015

O LOPES


Quando o conheci, ele morava numa velha casa isolada, perto dumas salinas quaisquer, e colecionava fachos na despensa da cozinha. Juntos uns contra os outros, respiravam o suor alheio, como porcos. Mesmo encarcerados, congeminavam sobre as formas de punição a dar aos comunas e outros que tais. A personificação do mal, ao lado dos cereais, do presunto e do sal.
E ele vivia para aquilo. Saìa à noite, descalço, para que não lhe caçassem as pegadas, e arrastava-os à porrada lá para casa. Montava grandes armadilhas para ursos, as quais eles pisavam, invariavelmente à razão de meia dúzia por semana. Sim, porque ele também descansava. Ao domingo, depois do pequeno almoço, deixava-lhes uma ração reforçada e sentava-se junto à água, contemplando os reflexos até ao pôr do sol, coçando a barba rija, e  raspando com as unhas a terra onde se sentava. A terra que era sua.

Depois veio a revolução, e com ela o fim da época de caça. Arrumou a caçadeira e o porrete, mas deixou a chibata  de rabo de boi, com a qual enxotou os canalhas de lá para fora. Passou a andar calçado e sem medo pelas ruas, e ia às adegas dos amigos beber um copo e falar de política. É verdade, até ele, que até se estava a cagar para isso, que o que ele queria era dar cabo do canastro aos pulhas do regime. Foi numa dessas visitas que o apanharam, com um tiro à queima roupa. Correu atrás do carro preto ainda durante um par de quilómetros sem o perder de vista, o que decerto deixou os mandados todos borrados, até que caiu para o lado, sem mais sangue para sair. Deram mais tarde o seu nome a uma praceta na zona nobre da cidade, onde os banqueiros e os seus comparsas contam a sua história nos lanches de família,  para meter medo à criançada.

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