sábado, 22 de novembro de 2014

SEISSEISSEIS


Eunice batia à porta sempre seis vezes, e sempre a mesma cara vinha abrir. Uma cara entreabria a porta e espreitava. Uma cara óssea e pequena, do tamanho de uma maçã grande. Os olhos escuros fixavam os dela, e repetiam sempre a mesma frase: estás enganada, bateste à porta errada, quem procuras não está cá, foge foge daqui JÁ! – e dito isto a cara acendia dois olhos e começava a gemer como uma cabra.
Eunice sabia que aquilo era um sonho, e que nada daquilo era real, mas não deixava de acordar sobressaltada e rezar logo seis avémarias e seis paisnossos. Era a madrugada de sexta feira treze, e andava a sonhar com aquela merda desde segunda, ou seja, mais uma vez e seria a sexta. Passou o resto do dia angustiada e à noite untou-se com azeite e alho e foi-se deitar toda nua, com o terço ao pescoço e a esperança de acordar no outro dia de manhã.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

TASCA


Anselmo volta para casa pela linha do comboio, a qual parece interromper-se debaixo dos seus pés. Às costas leva o acordeão cansado trazido da Guiné, dos tempos bons, de quando era novo. Sabe que quando chegar a casa, a menopausa da mulher não lhe vai dar tréguas, sabe que não vai ter o jantar à sua espera, sabe que vai dormir outra vez no sofá, e sabe que os filhos não vão estar em casa para aligeirar o serão. Os beijos antes de ir para a cama, as boas noites e os bons dias já deixaram de se dar há alguns anos. Mas ele nem sequer pensa nisso, não lhe faz falta, passa os dias anestesiado pelo álcool, pela bisca e pela tristeza.

EMIGRANTES


Hai-di olha o cargueiro a largar. Dentro deste, vários contentores coloridos e mudos carregam pesos variados. Dentro de um deles vai parte da sua família: O pai, e no seu bolso uma latinha com a mãe, extinta no ano anterior; o tio, um pouco mais novo, e os seus dois irmãos. São os homens que vão, nunca as mulheres. Espera-a uma vida a servir, a trabalhar de sol a sol, sem nunca ir à escola, sem nunca entrar no maravilhoso mundo que dizem haver dentro de cada livro. O ar há-de faltar dentro da caixa de chapa, por isso a jovem não sabe se a viagem deles vai ser defunta ou nascente. Apenas sabe que fica sem eles, e nem a bela paisagem a anima sob a sombra do seu chapeúzinho.