Como ovelhas, as cadeiras permaneciam convenientemente
dispostas na ordem preestabelecida E eram até mais ou menos felizes, pois
recebiam o sol sempre do mesmo ângulo, proporcionando ao cu dos seus
utilizadores uma temperatura amena e confortável. No entanto, a mesma radiação
que as aquecia, amarelava-as, envelhecia-as, e ninguém parecia importar-se que
tivessem a mesma vista dia após dia. Até que um dia uma delas se fartou, e,
tomando-se de imensa coragem, subverteu a ordem das coisas, arrumando-se de outra maneira. Logo outras a seguiram, para
espanto da organização e dos utentes. O castigo foi exemplar, foram derretidas,
trituradas, convertidas em aglomerado, e
depois injetadas nos moldes, de onde voltaram iguais ao que eram dantes, mas
já sem alma, por força das sevícias a que foram submetidas. Reciclagem
convulsiva e antecipada, como só quem manda muito sabe fazer.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
RAPUNZEL
A miúda acordou com os gritos. Levantou-se do sono leve,
atravessou o corredor ainda deserto, e dirigiu-se para a janela com vista para
a rua. Cá em baixo, ajoelhado na calçada, estava o rapaz que há uns meses a
pedira em namoro, e que ela recusara, na altura sem saber muito bem porquê.
Gritava o seu nome de cara voltada para o chão, as veias bem salientes no
pescoço.
Ela esboçou um sorriso pouco expressivo, e manteve-o, até
que a oficial de serviço a veio enxotar para dentro.
AA
Hernâni hesitou, quando passou à porta da tasca, impedido de
ir mais além por uma muralha invisível. Feita de muitas e pesadas amarguras,
desde a perda do emprego e da mulher até às rixas diárias que tinha na baixa,
com quem quer que no seu atravessado caminho se atrevesse a atravessar. Ergueu
os punhos e enfrentou a alucinação, como se naquele momento se esquecesse de
que voltara a beber. Filhos da puta, gritou várias vezes, com a voz enrolada, filhos
da puta.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
PERRO
No café da esquina, o dono teimava em não acorrentar o cão,
pelo que este montava guarda na esplanada e só deixava passar quem muito bem
entendia. Ignoro qual o critério que utilizava, mas que era eficiente, era. Só
entravam os clientes habituais, um ou outro mais destemido, ou ainda aqueles
que já estavam marcados, ou seja, que ele já mordera. Como se o ritual
geralmente executado no gémeo da perna mais próxima tivesse carácter de
submissão vinculativa, e daí em diante tivessem livre passe.
Até o dono da papelaria ao lado, imponente alfa da espécie
humana, ex-fuzileiro, se furtava às delícias pasteleiras do vizinho, com medo
da fera.
Este era, todavia, um cão muito especial, pois certo dia,
quando alguém chamou a polícia e esta veio numa carrinha azul, armada até aos
dentes, o fiel porteiro prostrou-se na calçada e ignorou completamente as
fardas, que entraram e saíram sem que o bicho lhes passasse cavaco. Nem
pestanejou, o cabrão.
Nesse dia, claro está, a recompensa foi maior, e a astúcia
do animal foi recompensada com uma voluptuosa rótula de vaca. Cão lindo, disse
o dono, afagando-lhe a testa maciça.
Subscrever:
Mensagens (Atom)