Farouk lia a última página do manual “salvação pelo
suicídio”. A estação estava vazia, o que para ele era perfeito, pois era um
homem tímido, recatado, e não queria cá público a ver o seu corpo separado no
carril. Ao mesmo tempo, o maquinista Pereira vinha, sóbrio como um pepino, a
gozar o seu primeiro dia no posto. Uma promoção bem merecida, pensava, já cá
ando há uns anitos. Ao chegar ao apeadeiro, olhou por segundos para o pulso, a
ver se estava a cumprir a rota ao segundo, e sentiu um pequeno solavanco que
abrandou a máquina por uns segundos. Deve ser normal, pensou, deve ser o aviso
para parar, e puxou a alavanca para trás.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
domingo, 26 de outubro de 2014
A FUGA
Não havia palavras para descrever aquela imagem. Ela falava
por si própria, em discurso bem sonoro. Foi em silêncio que a encontrei,
escondida ao fundo das escadas. Escondido por uma árvore, espreitei-a por um
breve momento. Ela espreitava, nervosa o fundo da rua, sem se deixar ver de lá.
Atravessei a estrada e o seu rosto não se iluminou, como era costume. Apenas me
pediu silêncio. Isso mesmo, o seu olhar mudo disse-me tudo sem trocarmos uma
palavra. Por cima dela pairava o enorme peso de um matrimónio demasiado obeso. Ela,
pelo contrário, era leve, por isso peguei nela e levei-a para casa. Agora ia
ser minha, e havia de apagar cada ruga do seu rosto, até que o passado não fosse mais que um mero suspiro de alívio.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
CARCAÇA
Era mesmo estúpida, o raio da velha. Sentou o cú gordo na
cadeira de chapa verde e desatou a exigir rapidez, que estava com pressa, que
tinha que fazer, que a sopa estava a ferver. Ostentando o ouro e o cabedal,
babava-se a cada colher de sopa. Emborcou os dois salgadinhos, e dirigiu-se ao
balcão. Ainda queria sobremesa mas o anfitrião omitiu-lha. Depois saiu,
carregada de compras, como se nada fosse. Há pessoas assim, que julgam que
estão acima das outras, e que o resto do mundo está constantemente ao seu
serviço. Coitado do marido, se ainda o tem.
sábado, 11 de outubro de 2014
PATRIMÓNIO
Atento, Mamadu voltou atrás para buscar uma pedra de
calçada, o martelo e o formão. Pois que ainda tinha que rebocar os blocos de
cimento que o patrão o deixou a assentar de manhã, e não queria deixar nada por
acabar. Sabia que ele regressava ao fim da tarde, obcecado pela perfeição,
passava revista ao andar da obra, e era raro aquele que, não cumprindo o que
lhe estava consignado, ficava impune ao castigo do Bigodes. Levantava o dedo calejado e apontava os erros, as falhas,
as imperfeições, e tudo o que estava incompleto ou deficiente. E ele precisava
do trabalho, ó como precisava, e do dinheiro ainda mais. O gajo pagava atrasado
mas não falhava, e o emigrante mandava o soldo quase todo para a sua terra,
onde não podia permitir que os seus filhos comessem pior do que ele.
OMIGO 2
De um modo geral, sempre prestei especial atenção ao que as
pessoas dizem, pelo que me tocou quando um amigo que trabalhava na área
financeira me confidenciou que andava frustrado porque na verdade não produzia
nada. Especulação, pura e dura, sugando-lhe a alegria de viver. Nunca mais
esqueci aquilo, e regozijou-me bastante quando o encontrei anos mais tarde e me
revelou orgulhoso que se tornado produtor e actor de filmes pornográficos.
Agora produz arte, a sétima, e produz também sémen suficiente para emprenhar um
convento de freiras inteiro. Quem disse que uma pessoa não pode mudar a sua
vida?
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
CARTA
Caro Júlio
Sei bem o que sentes
quando pensas em nós, em mim e depois no teu filho. Envio-te esta fotografia propositadamente para que não o
vejas crescer, e como vai mudando, parecendo-se sobretudo contigo. Há-de saber
a vida toda que o pai é um tipo às direitas, mas que, para seu azar, não quis
saber dele. Desisitiu, como se desiste de visitar um familiar muito velho num
qualquer lar onde definha. Sò que ele não é um velho. Ele é uma criança com um
potencial enorme que merecia carinho, cuidado, amor de pai. E até é isso que
tem, só que não é do pai que eu escolhi para ele. Isso deixa-me ainda mais
frustrada. Diabos te levem, Júlio.
Cumprimentos
Núria
VIRGEM
Virgem maria santíssima, gritou o homem, quando o leão meteu
a pata de fora da jaula e decepou uma senhora idosa como se fosse uma galinha.
Pegou atabalhoadamente na filha ao colo com um braço, noutro a
bicicleta-agora-já-sem-rodinhas da miúda e desandou de imediato dali, deixando
para trás os gritos horrorizados dos mirones das jaulas. Pousou a filha a umas
centenas de metros e a bicicleta logo a seguir. Enquanto pedalava, fingia uma
tranquilidade muda e cúmplice. Quando lhe pareceu que o pai já se tinha
aquietado um pouco, perguntou-lhe:
- Pai, porque é que as pessoas fecham os animais em jaulas?
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
VIAGEM
Jerónimo costumava achar que era ali que começavam todas as
viagens. Naquela entrada junto ao monte do Ti Manel. Punha-se ali sentado em
cima duma pedra, um tipo de marco de propriedades. Imaginava que alguém havia
de parar, por pena, solidariedade ou curiosidade, e convidá-lo-ia a entrar.
Levava sempre os seus parcos pertences numa mochilita de juta, mais uma fisga
no bolso, para o que desse e viesse. A mãe julgava-o na escola, e descansada,
entregava-se à pinga, nos intervalos da lavoura. Mas ele não queria saber, o cabrão
do professor não lhe havia de apanhar outra vez as suas pobres mãos com a régua
de pinho. À hora do fim das aulas, regressava a casa resignado, mas nunca
perdia a esperança. Amanhã alguém há-de
parar.
TOUTIÇOS
Aos fachos, como-lhes os toutiços! É a frase que mais
associo à revolução, pois era o que o Sandokan, o palrador amarelo do meu avô
repetia incessantemente às visitas. Cunhal, o rafeiro companheiro, respondia
com um ladrar progressista, via-se logo que solidário com as palavras do outro.
Quando lá se calavam, já depois de jantar, ouvíamos no velho gravador de
bobines as gravações dos capitães e das senhas, e no gramofone os hinos do
Zeca. E orgulhávamo-nos de a casa dos avós ter sido refúgio de muitos activistas
anti-regime.
sábado, 4 de outubro de 2014
RESILIÊNCIA
Uma lutadora, sim senhor- afirmavam uns, aqueles que não a
conheciam. Também os que desconheciam que ela não sabia fazer mais nada senão
aquilo. Fazia-a sentir-se viva, uma e outra vez, como se o coração lhe parasse
quando não dançava. Sozinha, a pares, em roda, em casa, no clube, na rua,
sempre solta, tremelicava o corpo, como um cão que sacode a chuva, e aí
começava ela a gingar ao som de qualquer que fosse a música. Pilhas que nunca
acabavam. Até no hospital, onde lhe amputaram o braço infectado, fez questão de
dar dois passos de dança com um enfermeiro e mais dois com o cirurgião, antes até
de lhe passar o efeito da anestesia.
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