domingo, 26 de outubro de 2014

A FUGA


Não havia palavras para descrever aquela imagem. Ela falava por si própria, em discurso bem sonoro. Foi em silêncio que a encontrei, escondida ao fundo das escadas. Escondido por uma árvore, espreitei-a por um breve momento. Ela espreitava, nervosa o fundo da rua, sem se deixar ver de lá. Atravessei a estrada e o seu rosto não se iluminou, como era costume. Apenas me pediu silêncio. Isso mesmo, o seu olhar mudo disse-me tudo sem trocarmos uma palavra. Por cima dela pairava o enorme peso de um matrimónio demasiado obeso. Ela, pelo contrário, era leve, por isso peguei nela e levei-a para casa. Agora ia ser minha, e havia de apagar cada ruga do seu rosto, até que o passado não fosse mais que um mero suspiro de alívio.

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