quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

SALESMAN



foto de RCid
Pedro entrou na refinaria de capacete apertado e braguilha bem fechada. Contando os passos e contendo a emoção, dirigiu-se ao fiel porteiro, que lhe indicou a entrada no edifício de zinco. Primeiro hesitante, e depois decidido, empurrou a porta pesada com a sua mão delicada. Sabia o que o esperava, e não contava com um dia fácil. O coração começou a bater mais forte no seu peito quando o encarregado veio ao seu encontro com um viril: BOM DIA, ENGENHEIRO, COMO ESTÁ! De mão estendida, o operário recebeu o rosado apêndice do técnico superior, apertando-o com firmeza. Ele mordeu as gengivas e correspondeu com a força possível. A visita decorreu tranquila, cumpriu os objetivos traçados e prometeu-se mais uma venda. Depois voltou para casa, onde a esposa o esperava com um perú assado no forno que não lhe apeteceu comer.

EMPRESÁRIO








foto de RCid

De uma improvável relação entre co-trabalhadores de uma empresa de tubagens, nasceu Antero.
À imagem dos seus progenitores, um aquilino nariz e um faro natural para fugas, fizeram dele um dos melhores técnicos de instalação de gás industrial. Vinham estrangeiros de todo o lado conhecer o seu trabalho, aprender com ele, beber da sua mestria e omnipotência olfativa.

Quando se sentiu realizado na sua profissão, atingindo o grau de instalador euro-certificado, mandou o seu aprendiz Gustavo fazer uma instalação em seu nome, sob um forte e bem delineado plano de ação. A coisa correu bem e decidiu montar uma empresa só sua, com um subsídio a fundo perdido, desses que achamos por aí.

Começou por adquirir os dois plasmas de que estava mesmo a precisar. De seguida apetrechou a sua casa de banho com loiça inteligente de última geração, que o lugar onde reciclava as suas entranhas carecia de um upgrade indispensável.

Achou-se então velho demais para abrir uma empresa. Como tal desfez a sua cara à porrada contra uma porta lá de casa, processou a vizinha de baixo por agressão e maus tratos, ganhou uma pequena indemnização, a qual, junta ao resto do bago do crédito, lhe deu ainda para viver dois anos dos rendimentos..

Passados dois anos de procrastinação, emigrou para a Índia, deixando o projeto da empresa, bem como a dívida, ao seu sobrinho anão, filho da sua meia irmã. Ali estudou as maneiras dos sikhs e demais hindus, e não tardou muito que atingisse a consciência suprema do seu olfato. E pacientemente praticou até não ser mais que um nariz.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

ONDE ESTÁS?





















 foto de MJSpiff


Dizem-me que estás no céu. Não acredito, porque olho e não te vejo. Olho todos os dias e não te vejo. Gostava que fosse verdade, que te pudesse distinguir numa nuvem, recortada contra o escuro do espaço, como te via nas ecografias. Se te visse, chamava logo a tua mãe, a tua avó, a tua tia, os teus irmãos, para verem também. Para te acenarem, com saudade. Com saudade do que nunca vivemos juntos, se é que se pode sentir isso. Acho que sim, que se pode sentir. Ficaram apenas as feridas nos nós dos dedos, dos murros que dei nas portas lá de casa, quando soube que não te ia ter. Ficou a dor de barriga, essa que não passa com comprimidos. E ficaram por dar tantas coisas, por dizer tantas coisas, tanto que ficou por beijar, por ver, por cheirar, por ouvir, por sentir. Apenas um grande vazio. Grande e frio.