quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

ALUNO 17/2002


Cara professora
Hoje vi uma fotografia sua de quando era mais nova na montra de uma loja muito antiga (pois é, vivemos numa terra pequena), e decidi escrever-lhe acerca da nossa relação.
Não pondo em causa o rigor a que com certeza dedica ao seu trabalho, parece-nos que pormenores mínimos de ortografia não sejam os critérios mais ajustados para a disciplina que leciona, mas iremos certamente consultar o conteúdo curricular contido no respetivo programa e requerer o parecer dos seus superiores na Escola.
Se o propósito é evitar que façamos copy/paste de conteúdos brasileiros de qualidade eventualmente duvidosa, bastava referir-nos ou elucidar-nos sobre os problemas de tais processos, e ensinar-nos antes a pesquisar e selecionar informação, deverá constar certamente do programa curricular. Lembro, aliás, que o Brasil está há muitos anos na vanguarda da Educação, e nele são produzidos imensos conteúdos de grande valor que são publicados na internet. Também, tal como sabe, as diferenças culturais que temos com este país e o seu povo, tendem cada vez mais a esbaterem-se e fundirem-se, por motivos quer históricos quer contemporâneos.
E acerca do tom com que se nos dirige, que já bem percetível para jovens da nossa idade, de maneira nenhuma se nos afigura como pedagogicamente indicado ou necessário, para além de não dignificar nem a nós nem à senhora professora. Alguns de nós, mais sensíveis, chegamo-nos até a questionar se a senhora não estará possuída por algum espírito maléfico, e um dia destes se incendeie por autocombustão e provoque um incêndio que muito nos prejudicaria, pois poderia danificar o parque informático da sala.

Ok, não somos usuários, mas também não somos otários.
Ou falando como se falava nos cafés de camareiras que frequentava com o meu avô, vá bardamerda, senhora professora.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

PERPECTIVA








Muitos dizem que são seres inanimados, mas não são. São entidades vivas, únicas, férteis, belas, que fazem a maravilha de adultos e crianças, que decoram e constroem o mundo em que vivemos. Muito injusta a sua conotação negativa, que leva a que se lhes comparem seres humanos com características que não têm nem nunca poderiam ter, pois não pertencem de facto à espécie que destruirá a Terra – os calhaus dos homens. De facto, são provavelmente a única coisa que restará, cobrindo as suas sepulturas, como o vêm fazendo desde a pré história, já para não falar do mau uso que têm tido nos castigos que os homens impõe uns aos outros. E é tão curioso observar como se deixam levar pelo mar e pelas crianças, engrossando coleções e histórias nos seus pequenos bolsos. Quem nunca levou uma pedra para casa, que atire a primeira.






quinta-feira, 19 de novembro de 2015

IMPERIUM




No castelo de Vinqu´ard dorme inquieto o conde Moberg. Consta que enterrou dezenas de corpos, vítimas das pestes e doutras doenças, debaixo do soalho da ala norte, para aquecer os quartos com a decomposição destes. À noite, quando se apagam as luzes, por vezes ainda é possível ver a luminescência pelas janelas, que embora ténue, chega para lhe iluminar o caminho à casa de banho, onde vai urinar várias vezes por noite, pois tem a bexiga pequena, e não suporta a ideia de usar penico, nem a de ter alguém a remexer nos seus dejetos.






ÍCARO

A lenha estava a acabar, bem como os fósforos. A comida enlatada acabara já há alguns dias. Na tenda improvisada de troncos e folhas dormia-se muito mal. Praguejou contra o destino e contra si próprio, por ter passado uma vida sedentária, agarrado ao laptop, à tv, ao ipad e ao tablet. Não sabia sequer como se alimentar sem o microwave. Caminhar, nunca mais do que o percurso até ao carro. Imaginou por momentos como seria se tivesse os poderes de Ororo ou de Kurt Weil. Depois foi até à beira do lago, olhou para cima e levantou vôo.


O ESTEVES

Há já muito tempo que não tocava num piano. Deixara de tocar quando a doença lhe tirou as forças e a inspiração. E no entanto, o banquinho de madeira chamava por ele. Levantou-se a custo da poltrona, levou consigo o copo de malte e pousou-o em cima da madeira de mogno. Fez deslizar a enorme hérnia inguinal para  cima, e sentou-se cuidadosamente. Os dedos não lhe obedeceram, e por isso tocou em pensamento uma canção do Stevie Wonder. Quando acabou, fechou lentamente a tampa do teclado, e suspirou. A mulher entrou naquele momento e lançou-lhe um olhar de censura: maridinho, já se esqueceu que o médico lhe proibiu as fantasias?

terça-feira, 17 de novembro de 2015

MARLENE



O marido na tasca, e ela ali a trabalhar. Bem passada estava a hora da reforma, mas não dava para os medicamentos, e como nem tudo se cura só com mezinha, a galega senhora empregou-se no quiosque de um vizinho. Os velhos vinham todos os dias e babavam-se olhando as revistas, sem nunca terem coragem ou dinheiro para as comprar. E portanto elas iam envelhecendo e ficando amarelas do sol, que o pó sempre se ia sacudindo à sexta feira, quando limpava o quiosque. De todos os anos que lá trabalharia, pouco mais do que umas quantas patacas iria juntar. Mas sempre lhe dava para se arranjar na Páscoa e no Natal para ir à missa, e tentar que o consorte a acompanhasse. Longe iam os tempos em que o seu marido lhe sussurrava aos ouvidos- Cucha. Em vez disso tinha ali os velhos que vinham todos os dias e se babavam olhando as revistas.


PRAZERES SIMPLES

Orlando apreciava o peixe fresco, o marisco e as guarnições de enfeite através do vidro imaculado da montra. Ainda por cima jogava o Benfica na televisão, companhia perfeita para um belo repasto. Havia já muito tempo que não o fazia, comer fora. Era sempre tudo contado ao tostão, e nada sobrava para luxos ou prazeres, mesmo os simples. Mas olhar é de graça e não tira pedaço, como se costuma dizer, e deixou-se ficar mais um bocado. Não podia demorar  muito, pois o estômago começava a queixar-se, e o dele era particularmente implacável, por força de estar diariamente muito tempo à espera. Olhou o relógio, remexeu o bolso direito na esperança de que, por artes mágicas, ali se tivessem materializado uma ou duas notas de vinte, mas o único papel que lá tinha era uma receita do médico que aguardava vez para ser aviada, que nem para isso havia. Absorto nos seus pensamentos, nem sequer reparou nos empregados que o olhavam com algum desdém- cliente que não penetra não faz despesa nem dá gorjeta. Quando lhe começou a doer, olhou novamente para o pulso, fingiu estar atrasado e desatou a subir a rua em direção a casa.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

DE VELHO NOVO SE FAZ NOVO VELHO


Estava-se nas alturas dos santos populares, e o amor, como sempre, pairava no ar, diluído entre o cheiro das sardinhas, do couratos e do suor. Laurinda passava por uma rua semianimada, quando deparou com ele. Estava velho, mas não tão velho como ela. Notavam-se as rugas mas não se notavam tanto como as suas. O cabelo dele estava agora bastante menos farto. Ela já usava peruca (das baratas, ainda por cima). Quase não tinha barriga e mantinha o andar elegante, e o olhar enigmático que deslumbrava as esplanadas, dezenas de mirones que parecia terem sido ali postos apenas para o ver passar. Ela suspirou, como da primeira vez que o viu. Um suspiro tão profundo que receou que ele tivesse notado. O seu coração acelerou quando se cruzaram.Ele passou e não a reconheceu. Ela não se voltou para trás para o chamar.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

GRANDE LATA


 

Afrodite passava férias num país mediterrâneo bem seu conhecido. Como em qualquer país mediterrâneo, rico em festas e bailaricos, a exuberância dos naturais era reconhecida internacionalmente.
Depressa encontrou um grupo de amigos que a levaram para o quente centro da hospitalidade. Por via mais ou menos ilegais (note-se o mais ou menos porque toda a gente fazia o mesmo quando podia), uma lata de cerveja parou nas mãos de Zeus. Ao abri-la, incauto, o jovem cortou-se numa aba.
Com toda a ternura, Afrodite tratou dele, e nesse gesto descobriu o amor, um amor de que não estava à espera, mas que no seu íntimo procurava desde sempre.
O destino, hábil em surpresas e inesperados, coincidiu com o tempo que passava, e sua mão larápia transformou para sempre as suas vidas.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

LINHA AZUL 2


Anah esperava por Farouk para o almoço, ansiosa, na varanda que dava para a rua da frente. Não era costume ele atrasar-se, pois fazia da pontualidade uma questão de honra. Não raras eram as vezes em que, tendo ela tardado uns minutos com a refeição, ele lhe dava uma enorme reprimenda, discorrendo sobre sobre honra e compromisso, rotina e felicidade, deferência e lealdade. E ela fazia os possíveis para ir cumprindo. Hoje começava já a ficar nervosa. Ele tinha saído de manhã, livro debaixo do braço- esse livro que não lhe mostrava, e que andava a ler já há um par de semanas- carteira com o passe e uma nota de dez, e pouco mais. Mal sabia ela que ele se tinha sentado numa estação a acabar de ler o livro, e se distraiu com o passar dos comboios, até ser tarde demais para ir pegar ao serviço.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

HISTÓRIA

Vês, filho, era aqui que os antigos guardavam as bestas, disse o pai, pondo um ar solene. O filho olhava pasmado e imaginava o tamanho que deviam ter esses bichos, e quão grandes deviam ser as suas cabeças para não passarem pelos intervalos das colunas. Olhou para o pai, e este, procurando desfazer todas as suas dúvidas, rematou: Vês as dentadas que davam na pedra a tentar fugir. Diz-se que comiam vacas inteiras quase sem mastigar. O miúdo, já um bocado assustado, puxou a mão do homem para se irem embora. e ele acedeu: Ali mais à frente vamos ver uma capela cheia de caveiras.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O CHEF

O chef fritava, compenetrado, as bifanas do dia, quando ao virar-se para tirar uma alheira já pronta, deu com um parzito de olhos a olhar para ele do meio do petisco. Congelou, naquele momento. O suor em bica a correr-lhe da testa sobre os olhos, talvez lhe causasse alucinações, pensou, ao ver que o bichito o olhava fixamente nos olhos. Antigamente não teria hesitado um segundo, e tê-lo-ia esmagado entre os dedos sem misericórdia. Mas desde que visitou um parque de diversões na Alemanha, numa visita ao seu irmão emigrado, e entrou numa diversão chamada maus au chocolat, a sua perspectiva sobre os roedores caseiros mudara completamente. Passou a sentir por eles uma afinidade imensa, de tal maneira que jurou voltar lá um dia, a esse parque, e passar um dia inteiro a entrar e sair naquela aventura virtual. Calhou também nesse mesmo ano ler um livro muito engraçado do escritor Boris Vian, A espuma dos dias, no qual a espécie roedora normalmente classificada como praga, era afinal rainha e companheira. De forma que contemporizou, olhou por cima do ombro, depois para o lado de fora da montra, e constatando que ninguém olhava para ele, empurrou delicadamente com o indicador uma das alheiras semiratadas na direcção do pequeno focinho dentuço. O ratito não se fez rogado, e abocanhando o presente, lançou-lhe um olhar de aprovação, à laia de despedida-até-mais-logo, e recuou para baixo da montra.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

MARIONETA

Às vezes conhecemos pessoas que nos agradam, que nos são indiferentes, ou de quem não gostamos. O Marinho não encaixava em nenhuma destas categorias. Sempre bêbado, nunca lhe vi um dia igual. Hoje bem disposto e falador, envergonhando as pessoas na rua; Amanhã estará macambúzio, calado e distante. Noutro dia ainda, uma mistura dos dois temperamentos. Às vezes ouvia-o defender acerrimamente os direitos gays- dos barrons, como ele dizia- e no dia a seguir queria matá-los a todos, que essa gente não prestava. Tanto perdia uma tarde inteira a cortejar um farrusco com as suas mãos finas, como pontapeava qualquer bicho que lhe aparecesse pela frente. Nunca soube o que fazia, pois tanto parecia um doutor, calça vincada e camisa com gravata, como um trolha, ou ainda um catequista- nestes dias envergava uns calções azuis escuros e uma camisola branca de gola alta muito justa, e usava o cabelo penteado para trás com risco ao meio. Não posso dizer que gostava dele nem que deixava de gostar. Mas tão pouco me era indiferente. Era aliás muito difícil passar despercebido. Deixei de o ver depois do vinte e cinco de Abril, ninguém sabe para onde foi. Era um tipo estranho, o Marinho Marioneta.

CANIS VITAE

O velho deambulou toda a manhã pelas ruas do monte, a ver se alguém lhe dava alguma coisita de comer. Alguns enxotaram-no, mas poucos. A maior parte ignorou-o, como se fosse invisível. Pudera, que com o passar dos anos, as maleitas que carregava- sobretudo a falta de dentes- despiram-no completamente do seu ar feroz. Até os bichanos lhe perderam o respeito, e olhavam para ele com desdém, que hoje em dia as pessoas parece que gostam mais desses infiéis do que dos da sua espécie. Ou talvez não, talvez esteja enganado, e seja só mais um dos pensamentos solitários que lhe assoberbam os quadris enfraquecidos. De qualquer das formas, decidiu tentar acabar com a vida. Dirigiu-se conscientemente para uma estrada que sabia ter maior movimento, e esperou junto ao cruzamento. Quando viu ao longe o que lhe pareceu um veículo, preparou-se para o fim. Quando lhe pareceu que era o momento, saltou para o meio da estrada. Os pneus chiaram, e sentiu a morte a chegar devagarinho. Quando abriu os olhos, deu com o nariz encostado ao plástico cinzento do párachoque de um carro. Ouviu o dono sair lá de dentro, e dizer com pena- coitadinho do cão, anda perdido, e uma voz de mulher- não anda nada, é mas é um rafeiro aí da rua.
Com pena do bicho, o homem pegou-lhe, e ele suspirou de alívio e sorriu de contente. Talvez o levassem para uma casa, onde lhe dariam um banho quente e perfumado, e uma bela dose de trinca com umas farripas de carne. Neste pensamento ficou e adormeceu, até sentir o carro parar, e tudo acabar num ápice. Ouviu muitos cães a ladrar, dois homens a falar: Pronto, amigo, assine aqui, está entregue. E viu o sol aos quadradinhos até ao fim dos seus dias.

CABIDELA

Rodeada de pessoas que não conhecia, Doina avançou, como lhe mandaram. Puxando uma mala que não era a sua, cheia de coisas que não eram as suas coisas, deu por si a ter pensamentos que não eram seus,  e pensou como seria bela, a ideia de fugir. Apenas a ideia, sem nada mais a acompanhar. Um tipo de fantasia passageira, como uma pequena  constipação. Ainda lhe pareceu ver a silhueta do namorado ao longe, passeando entre as carruagens, cruzando-se com as silhuetas de outros jovens. Pareceu-lhe que dizia que não com o dedo. Que não tentasse nada, que tinha mais a perder do que a ganhar. Mas ganhou, um lugar mesmo à janela, cruelmente guardado para si. Para que pudesse despedir-se melhor da sua terra, enquanto a máquina a puxava para longe de tudo. E quando cruzou a fronteira para o país vizinho, foi como se a rasgassem ao meio, e o seu sangue vertido num alguidar.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

CAMANÉ

Naquele dia alguém chamou a polícia. Algum vizinho, farto de levar com o cheiro a fumo frio nos canos da casa de banho, ou algum amigo invejoso que se fartou de não ser convidado. O Alberto foi à varanda e gritou isso mesmo lá para dentro: Vem aí a polícia, Camané, refundam essa merda. Por ser pedonal e ter postes no chão, os bófias subiam a rua a pé, e parecia nem sequer virem muito depressa. Mas vinham lá a casa, de certeza.
Lesto, Alberto veio para dentro, e correu para a cozinha, onde acendeu o fogão e pôs uma frigideira de óleo ao lume. Imperturbado com os gritos do pessoal, aflito, a esconder tudo o que fosse substâncias ilegais, tirou metodicamente os choquinhos do frigorífico e desatou a fritá-los mal o óleo aqueceu, espirrando bancada, chão e paredes. Mas agora é que vais cozinhar, caralho?, gritou indignado Camané, o dono da casa, enquanto escondia os cachimbos dentro dos toalhões de banho. Alberto seguia pondo à mesa à pressa.
A campainha não tardou a tocar, e sentaram-se todos os quatro, a saber, o Camané, o Velhinho, o Valentim, e a Marta, que agora se começava a arrepender de ter vindo. Ligaram a televisão num canal generalista, onde uma tipa qualquer berrava aos concorrentes umas perguntas sobre Geografia, e fizeram os possíveis por se aprumar.
Quem acabou por ir abrir a porta, de avental à cintura, foi o Alberto, com um copo de vinho tinto na mão. Boas noites dadas, os dois agentes foram entrando e deram uma olhadela aos convivas. O Alberto fingiu ser o dono da casa, e atraiu-os para a cozinha, de onde o fedor a fritos inundava o resto da residência. Sentou-os à mesa com um copinho para cada um, serviu-lhe choquinhos fritos com coentros e arroz de passas, e no final uma aguardente velha. Passado meia hora, como se nada fosse, os polícias vieram dizer adeus à sala, onde o grupo fingia extrema atenção ao questionário televisivo, e saíram. Os amigos levantaram-se logo a seguir, ainda muito brancos e foram saudar o amigo mais velho: Foda-se, Alberto, tu sabias mesmo o que estavas a fazer, ao que este replicou que nem por isso, os últimos chocos tinham saído um bocado queimados.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O LOPES


Quando o conheci, ele morava numa velha casa isolada, perto dumas salinas quaisquer, e colecionava fachos na despensa da cozinha. Juntos uns contra os outros, respiravam o suor alheio, como porcos. Mesmo encarcerados, congeminavam sobre as formas de punição a dar aos comunas e outros que tais. A personificação do mal, ao lado dos cereais, do presunto e do sal.
E ele vivia para aquilo. Saìa à noite, descalço, para que não lhe caçassem as pegadas, e arrastava-os à porrada lá para casa. Montava grandes armadilhas para ursos, as quais eles pisavam, invariavelmente à razão de meia dúzia por semana. Sim, porque ele também descansava. Ao domingo, depois do pequeno almoço, deixava-lhes uma ração reforçada e sentava-se junto à água, contemplando os reflexos até ao pôr do sol, coçando a barba rija, e  raspando com as unhas a terra onde se sentava. A terra que era sua.

Depois veio a revolução, e com ela o fim da época de caça. Arrumou a caçadeira e o porrete, mas deixou a chibata  de rabo de boi, com a qual enxotou os canalhas de lá para fora. Passou a andar calçado e sem medo pelas ruas, e ia às adegas dos amigos beber um copo e falar de política. É verdade, até ele, que até se estava a cagar para isso, que o que ele queria era dar cabo do canastro aos pulhas do regime. Foi numa dessas visitas que o apanharam, com um tiro à queima roupa. Correu atrás do carro preto ainda durante um par de quilómetros sem o perder de vista, o que decerto deixou os mandados todos borrados, até que caiu para o lado, sem mais sangue para sair. Deram mais tarde o seu nome a uma praceta na zona nobre da cidade, onde os banqueiros e os seus comparsas contam a sua história nos lanches de família,  para meter medo à criançada.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Num belo recanto de um magnífico jardim, os casais namoram, os estudantes estudam, os eruditos lêem, os jardineiros jardinam, as vizinhas quadrilham, os larápios espreitam. Mas ninguém dá pelo corpo inconsciente depositado nos degraus. Pensarão que dorme, ou que relaxa, ou que recupera de uma ou várias noites de borga, ou que faz tudo isto ao mesmo tempo. Ninguém estranha a sua postura encarquilhada, nem a ausência de movimento de maré no seu tórax, nem o odor que lentamente se começa a desprender das suas partes privadas. 
Em Portugal, em dois mil e quinze, as pessoas são menos que pó.

terça-feira, 14 de abril de 2015

URGÊNCIA


Rosalina acabara de sair do minimercado, interrompendo com a delicadeza possível a conversa com a vizinha de duas ruas abaixo. Contorcia-se a subir as escadas, e rezava baixinho, tentando não perder a compostura, sua imagem de marca conquistada ao longo dos anos, à custa dos vestidos bem engomados, cabelo bem arranjado e pintura bem desenhada. Mas o intestino não dava tréguas. Havia ocasiões em que a coisa aliviava durante uns segundos, com um contrair e afrouxar cíclico dos glúteos, e lhe permitia cruzar a meta da sua porta. Este não era um desses dias. O músculo bondoso parecia não funcionar, o seu sorriso amarelava a cada passo, e a descarga estava iminente. Quando finalmente meteu a chave no buraco, e começava a dar graças pela vitória, o carteiro pôs-lhe a mão no ombro:

- D. Rosalina, tem aqui uma carta registada, tem que ma assinar, se faz favor.

quarta-feira, 25 de março de 2015

MASSA EM BOTAS SENDRA


O vento fustigava as árvores e as pessoas que se abrigavam como podiam nos apeadeiros dos autocarros. Excelentes proteções para os utentes dos transportes públicos, as estruturas de ferro, alumínio e vidro solidamente chumbadas ao chão de betão e calçada. Completamente alheio a tudo isto, o jovem caminhava sozinho a passos largos em direção à paragem do autocarro para o Monte da Caparica. O chão parecia tremer sob o seu peso e a sua imponente figura. Distraído mas determinado, acelerou o passo ao ver que já se fazia tarde, olhos sempre fixos no chão. Quando terminava de trautear o último verso de Bela Lugosi´s dead, atravessou o vidro da paragem como uma locomotiva. Quase caiu, e ainda patinou um pouco nos milhões de vidros espalhados pelo chão. Olhou para as mãos, limpas, endireitou-se, recuperou a tração nas botas, e retomou o seu caminho, negro nos seus pensamentos musicais. Undead, undead, undead.

CAÇADOR DE VAMPIROS 2


Disfarçado de vendedor de alhos, o caçador de vampiros deslizou pela calçada. Bem calçado, para não escorregar quando fosse a hora da carga, passeou pelos cafés da praça central, e parou quando reparou que um dos esplanadeiros não projetava sombra no chão à sua frente. Perguntou-lhe as horas, e quando este, convencido do seu disfarce humano, lhe respondeu que não tinha relógio, as suas dúvidas desfizeram-se. Num movimento contínuo, pousou o saco e cravou-lhe uma estaca no peito, fazendo cair o copo de ginger ale ainda cheio sobre a mesa de alumínio. As pessoas em volta ajudaram a varrer as cinzas e aproveitaram para comprar algumas cabeças da bendita hortícola. O justiceiro já não espera nos becos, pois apesar de se apertar o cerco e alguns dos dentuços estejam já atrás das grades, há-os cada vez em maior número, e andam sedentos, sem medo e sem vergonha.

terça-feira, 10 de março de 2015

FURA VIDAS


Sem saber muito bem como nem porquê, Ernesto foi despedido do seu emprego de fiel de armazém. Extinção do posto de trabalho, o que quer dizer que ele foi posto na rua, mas os colegas não, e a empresa continua a funcionar. Teve pena, pois já lá trabalhava há quase trinta anos, e gostava do que fazia. Mas como nunca foi de baixar os braços, pegou no dinheiro da indemnização e, contra a vontade da mulher, adquiriu um stock considerável de artigos eróticos a um fabricante indiano e dedicou-se à venda ambulante. É vê-lo todos os dias na baixa, a apregoar a mercadoria- Olhó brinquedo maroto, é prá menina e pró menino, olhó rajá do mandingo, olhá boneca d´encher.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

REVOLUCION



Como ovelhas, as cadeiras permaneciam convenientemente dispostas na ordem preestabelecida E eram até mais ou menos felizes, pois recebiam o sol sempre do mesmo ângulo, proporcionando ao cu dos seus utilizadores uma temperatura amena e confortável. No entanto, a mesma radiação que as aquecia, amarelava-as, envelhecia-as, e ninguém parecia importar-se que tivessem a mesma vista dia após dia. Até que um dia uma delas se fartou, e, tomando-se de imensa coragem, subverteu a ordem das coisas, arrumando-se  de outra maneira. Logo outras a seguiram, para espanto da organização e dos utentes. O castigo foi exemplar, foram derretidas, trituradas, convertidas  em aglomerado, e depois injetadas nos moldes, de onde voltaram iguais ao que eram dantes, mas já sem alma, por força das sevícias a que foram submetidas. Reciclagem convulsiva e antecipada, como só quem manda muito sabe fazer.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

RAPUNZEL


A miúda acordou com os gritos. Levantou-se do sono leve, atravessou o corredor ainda deserto, e dirigiu-se para a janela com vista para a rua. Cá em baixo, ajoelhado na calçada, estava o rapaz que há uns meses a pedira em namoro, e que ela recusara, na altura sem saber muito bem porquê. Gritava o seu nome de cara voltada para o chão, as veias bem salientes no pescoço.

Ela esboçou um sorriso pouco expressivo, e manteve-o, até que a oficial de serviço a veio enxotar para dentro.

AA


Hernâni hesitou, quando passou à porta da tasca, impedido de ir mais além por uma muralha invisível. Feita de muitas e pesadas amarguras, desde a perda do emprego e da mulher até às rixas diárias que tinha na baixa, com quem quer que no seu atravessado caminho se atrevesse a atravessar. Ergueu os punhos e enfrentou a alucinação, como se naquele momento se esquecesse de que voltara a beber. Filhos da puta, gritou várias vezes, com a voz enrolada, filhos da puta.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

PERRO

No café da esquina, o dono teimava em não acorrentar o cão, pelo que este montava guarda na esplanada e só deixava passar quem muito bem entendia. Ignoro qual o critério que utilizava, mas que era eficiente, era. Só entravam os clientes habituais, um ou outro mais destemido, ou ainda aqueles que já estavam marcados, ou seja, que ele já mordera. Como se o ritual geralmente executado no gémeo da perna mais próxima tivesse carácter de submissão vinculativa, e daí em diante tivessem livre passe.
Até o dono da papelaria ao lado, imponente alfa da espécie humana, ex-fuzileiro, se furtava às delícias pasteleiras do vizinho, com medo da fera.
Este era, todavia, um cão muito especial, pois certo dia, quando alguém chamou a polícia e esta veio numa carrinha azul, armada até aos dentes, o fiel porteiro prostrou-se na calçada e ignorou completamente as fardas, que entraram e saíram sem que o bicho lhes passasse cavaco. Nem pestanejou, o cabrão.

Nesse dia, claro está, a recompensa foi maior, e a astúcia do animal foi recompensada com uma voluptuosa rótula de vaca. Cão lindo, disse o dono, afagando-lhe a testa maciça.