segunda-feira, 29 de setembro de 2014
SERENATA
Sentado tocando seu acordeão, Anselmo parece não perceber as
jovens que o observam da esplanada, e se calhar nem sequer ouve os seus
piropos. Está concentradíssimo, e as notas saem-lhe com uma cadência
extraordinária, conseguindo por vezes elaborar transições imperceptíveis entre
temas, mantendo uma sonoridade contínua e inebriante. Tão focado está que nem
consegue largar o instrumento ao ver passar a mulher dos seus sonhos. Os seus
dedos parecem fundir-se com as teclas e os botanitos da máquina, e a própria
música, sua madrasta, parece troçar dele, enquanto a sua vida se afasta pela
calçada.
TSUNAMI 2
António sabia que este dia havia de chegar. Ouviu o ruído da
onda gigante quando estava a acabar o pequeno almoço. Deu um beijo à mulher sem
a acordar, enrolou calmamente um cigarro, vestiu o impermeável e saiu para a
praia. Sabia também que não teria tempo de fugir, só pegar o triciclo
levava-lhe pelo menos dez minutos. Acendeu o fumante e colocou-se de frente
para o mar, feliz por morrer na sua terra, na sua praia.
TSUNAMI 1
Boa terra, um pouco salgada, bom turismo, um pouco
esquecido. Gentes mais e menos humildes. A onda veio num Sàbado de manhã,
apanhando de surpresa as pessoas na lota, no mercado, nos cafés, no paredão,
nas hortas, nas tendas. Em vez de voltar para trás, como fazem de costume as
ondas, esta veio e ficou, afogando tudo em vinte metros de água. Tudo ficou
como era dantes, apenas com a diferença que se viam agora, aqui e ali, os
cocurutos dos prédios mais altos, e os restos da ocupação. Os jornais falaram em
tragédia de proporções épicas. O que é do mar, a ele há-de voltar.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
MADALENA
A Cooperativa Piedense reabriu após uns anos de
encerramento, e felizmente, que dá muito jeito à população envelhecida da Cova
da Piedade. Hoje reparei no expositor do hall de entrada, e estive a ver
fotografias de há muitos anos, a preto e branco. Sabendo que era lá que a minha avó ia às compras, tive esperança de
a encontrar naquelas imagens. Seria como vê-la viva outra vez, coxeando, quase
cega, às apalpadelas pela rua acima, arrastando os érres, trazendo sempre
qualquer miminho para o seu netinho. E agora, homem feito, escondo as lágrimas
atrás dos óculos escuros enquanto escrevo.
Avó, como sinto a tua falta.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
ESPERA
Simão sabe que fez mal. Não devia ter assaltado aquela
velhota no cais do Sodré. Agora de volta à sua margem, manietado por três
populares e um contramestre, nem sequer pode tentar o desbordo, chegar à
Trafaria a nado. Do outro lado encontra-se a carrinha da brigada, repleta de
cassetetes aos quais não poderá fugir. Congemina já uma história o mais simples
possível, do tipo, não tenho o que dar de comer aos meus filhos, ou a minha
mulher gasta-me o dinheiro em bebida, ou ainda, estou a dever a um vizinho que
me mata se não lhe pagar. Mas também já sabe que não lhe valerá de nada, pois
tanto ele como as histórias já são por demais conhecidos dos agentes. Só espera
que eles perguntem antes de bater, para ele se poder escusar, talvez atenue um
bocadito: Simão sabe que fez mal.
CAÇADOR DE VAMPIROS
Vive em Almada, não vou dizer onde. Desenganem-se com seu aspecto frágil. Disfarçado de vendedor
de alhos, carrega suas pesadas sacas, e apregoa a mercadoria em voz sonante: Olhó alho. Ainda nunca se
viu nada, pois atrai os dentudos para becos sombrios, geralmente perto dos seus
covis ou sedes partidárias, onde os empanturra com as cabeças do referido
hortícola. Embora nada haja de concreto que o confirme, toda a gente desconfia,
e lhe agradece, enquanto lhe compra também uns saquinhos para proteger os seus
lares. É que se alguém se engana com seu
ar sisudo, e lhes franqueia as portas à chegada, já se sabe o resultado.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
TURIVIEW
Hello Josep. I´ve been in Lisbon for a couple of days, while waiting for my flight to Amsterdam. It´s a very dirty town, everybody throws everything away. In fact, it probably is the most rat-friendly city I´ve ever visited. However, the people are very friendly, regardless of being unemployed, most of them. What I found very odd, is that they keep on voting for the most corrupt to lead their future. That´s not very smart, is it? See you soon.
Joy
Joy
JUDAS
Os crucifixos ficaram espetados na areia. O vento e a areia
taparam as gotas de sangue e suor, bem como as lágrimas, o mijo e o vómito.
Pareciam veleiros soterrados na praia
solitária. A viúva olha agora o mar revolto. De pés juntos, jura vingança. Em Junho
voltará com a família, para acertar contas com os traidores. E virá armada com
a maior faca que encontrar, para levar a cabeça do tratante para a sua terra,
onde a cozerão debaixo da terra, com batatas, couve e feijão.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
MARÉ
Deu à costa numa manhã de Domingo. As crianças da praia logo
se reuniram em redor da estranha criatura, observando, tocando, mas com
cautela. Sabiam que o mar trazia coisas esquisitas, e todo o cuidado era pouco.
Não tardou que chegasse o chefe e organizasse os curiosos. Dispostos em
semicírculo, cada um opinou sobe o que seria. Desde droga a brinquedos,
passando por ficheiros secretos de fraudes bancárias, tudo se congeminou. Quem
os visse ao longe, pensaria que não demorariam muito a desfazer o aglomerado de
redes e panos, mas não. Deixaram-no tal qual estava e foram brincar, como
sempre. O que o mar traz, a ele pertence, e para ele há-de voltar.
SURVIVOR
Chegou ao fim da sua jornada. De longe a mais difícil até
hoje. Comeu de tudo, desde escorpiões a aranhas, passando por cobras,
escaravelhos e alguns que nem soube identificar. O último caiu-lhe bastante
mal, e havia já dois dias que vomitava repetidamente e perdia forças a cada
metro que andava. Quando bateu à porta, o filho mais velho veio abrir, e
amparou-o nos braços, já defunto.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
RATA
A sua casa tem muitas portas, muitas entradas e saídas. Tem
mais tocas do que um coelho, mais túneis que uma toupeira, e é mais astuta que
uma raposa. Vive do que os outros deitam fora, mas não se importa, considera-se
até bastante feliz, na sociedade moderna de tudo se despojam os homens. Do escuro da sarjeta, o animal espreita os
passantes e espera a qualquer momento algo que caia ao chão para, nem que seja
no intervalo das máquinas fumegantes que passam no alcatrão, ir a correr
apropriar-se do farnel. Já ouviu dizer que há países distantes onde outras como
ela são idolatradas, e lhes é concedida a pré-lavagem dos pratos dos
restaurantes. Após o serviço, os empregados empilham as loiças nas traseiras, e
é vê-las às centenas, amontoadas sobre os pratos. Sonha com esses sítios, enquanto espera pelos sobejos dos
humanos.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
FRANK
Chamavam-lhe Frankenstein, os
funcionários do hospício. Desde a sua conturbada e compulsiva admissão que decidira dar aos seus esbirros o maior
trabalho possível. Havia de lhes fazer a vida negra, tivessem ou não culpa do
seu internamento. Tanto lhe dava. Gritava a plenos pulmões desde que acordava
até que se deitava, exausto e rouco. Recuperava forças, dormindo como uma
pedra, e recomeçava pela madrugada. Quando o amordaçavam, para não perturbar os
outros hóspedes, contorcia-se violentamente até chegarem os tipos maiores com
as seringas. Inoculavam-lhe todo o tipo de sedativos legalmente permitidos, mas
estranhamente pouco ou nenhum efeito lhe faziam. Talvez fosse genético, sim,
devia ser isso, um tipo de imunidade superpoderosa aos anseolíticos herdada,
por exemplo da sua avó Isilda, que constava desmanchar os homens lá da terra à
porrada. Ou também podia ter sido do facto de a sua mãe ter passado a sua
gravidez a trabalhar nas minas de cobre, constantemente imersa em águas contaminadas
até às mamas. Após a sua última lobotomia, clinicamente urgente e inadiável,
perdeu a voz. Os cabrões dos médicos encontraram uma forma de o calar. Como já
não podia incomodar ninguém com barulho, escreveu uma surpreendente carta ao
director, com cópia para o Ministério, e para o gabinete do assessor do
secretário do presidente, onde eloquentemente explicava a sua situação, e em
como a última cirurgia lhe tinha devolvido a total lucidez, e se considerava
completamente recuperado e pronto para regressar à vida em sociedade. O despacho
foi dado, o pedido deferido e o homem libertado. Faustino, o Frankenstein dorme
na rua, e espalha a sua mensagem nas paredes caladas da cidade.
PIQUENIQUE
D. Ifigénia chegou carregada com os taparuéres e os termos
repletos de croquetes, rissóis e panadinhos acabados de fazer. As raparigas
tagarelavam animadas, e nem deram pela sua presença. Discutiam a idade ideal
para perder a virgindade, e qual a melhor altura para voltar a achá-la, de
preferência uns dias antes de casarem. Uma afirmava conhecer um hospital que
lhes restituiria a pureza mediante o pagamento de chorudos honorários, outra
dizia que bastava mentir, outra que o molho de tomate na consistência certa e
no momento indicado serviria muito bem. Outra não ligava a mínima à conversa, e
a outra desconversava, puxando assuntos triviais, como a origem da vida, ou as
virtudes de praticar o bem. Quando
pediram a opinião da avó, ela respondeu-lhes que era de outros tempos e que
até tinha uma vizinha que tinha um atestado de virgindade passado pelo
hospital. Antigamente havia decoro e as mulheres guardavam-se para o amor da
sua vida. A neta mais atrevida perguntou-lhe se já tinha tido orgasmos. Ela disse que sim, há muito tempo, mas que o médico, o bom Dr Reboxo, lhe tinha
curado isso com uma loção da qual já não se lembrava do nome.
sábado, 6 de setembro de 2014
GLH
As lojas
estavam a fechar e o homem não se ia embora. De nariz encostado ao vidro,
admirava as clientes do salão de beleza. Em breve alguém chamaria a polícia.
E que
está o senhor aqui a fazer, perguntaria o agente. Nada.
Então desande daqui, se faz favor.
Mas não estou a fazer nada de mal, estou só a olhar, o olhar não tira pedaço.
Depende, obstou o agente, depende do resguardo que as senhoras queiram manter. O direito á privacidade, percebe?
Percebo muito bem, senhor agente, então e o meu direito à liberdade e à livre circulação? Não sou nenhum tarado, estou simplesmente a ver.
Mostre-me então os seus documentos, por favor. O homem revistou os bolsos e revirou-os. Vazios. Não tenho, sou sem abrigo.
Então e a sua identificação?
Não tenho, já lhe disse.
O polícia começava a perder a paciência e endureceu o discurso. Tem que andar com a sua identificação.
Não tenho nada, fui assaltado.
Onde mora?
Não tenho casa, já lho tinha dito.
Como se chama?
Jesus de Nazaré.
A sério?
Não, estava a brincar, que interessa o nome que lhe dou?
É obrigatório ter um nome. Eu diria até que é um direito.
Pois olhe, senhor agente, eu não tenho casa, não tenho emprego, não tenho família, não tenho documentos, e deixei de ter nome. E ainda por cima, estou quase a deixar de ter cabelo.
Ah, sim, exclamou o polícia, tirando a boina, pois olhe que há um spray muito bom para isso, olhe aqui, e baixou a cabeça, mostrando uma calvície disfarçada com o que parecia tinta castanho escura.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
COMO ÁGUA
Respondo-lhe em forma de carta,
caro amigo. Gostaria de saber se, ao chamar-me ordinário, me está a insultar
pessoalmente, ou se está a referir-se às nossas publicações. Considerando que a
mais plausível é a segunda opção, pois nunca lhe dei confiança para a primeira,
gostaria de saber se considera as mesmas provocatórias ou simplesmente
vulgares?
Devo desde já informá-lo de que dispomos de autorização do MAI
(Ministério dos Assuntos Irrelevantes) para abordar temáticas e assuntos de
alta irrelevância nacional, como as disputas intrapartidárias ou as fraquezas
neurológicas do Senhor Presidente, e também de que temos na nossa equipa um
conjunto de advogados reformados dotados de um conjunto de competências
particulares, que lhe trarão certamente muitos dissabores caso persista na sua
intenção de difamar o nosso trabalho. Os nossos melhores cumprimentos à sua
mãezinha.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
MELHOR AMIGO
Há já algum tempo que Paulo tomara a decisão de desaparecer por uns tempos. A complexa trama em que a sua vida se havia tornado não lhe deixava muitas hipóteses, e desgastara-o de tal forma que deixou, primeiro de trabalhar, depois de comer, depois de falar. Não estava doente, apesar da ausência de nutrientes, o que lhe parecia também pouco normal. Quando não se come, a tendência geral é para a enfermidade. Mas não ele. O seu corpo, bem como a sua mente, suportavam sem grande dificuldade a falta de refeições. Fora isto que o levara a comparar-se com Cristo, ou Siddartha, e a ter considerado ainda tornar-se peregrino, ideia que logo deixou cair pelo esforço que isso representaria. Além disso, não estava interessado em conhecer novas paragens ou pessoas. Nem as que conhecia lhe interessava ver.
Tinha-se afastado de quase tudo e todos, como de uma moléstia. De todos, à excepção do seu cão, Fu Manchu, a quem tratava carinhosamente por Fu, e quando a coisa azedava e tinha que o repreender, por Fu Manchu (um pouco como fazia a sua mãe, quando o tentava disciplinar).
Fu mantinha-o vivo com a pureza original canina que todos conhecem. A verdadeira dedicação, alguma comida e um pouco de atenção.
Tinha-se afastado de quase tudo e todos, como de uma moléstia. De todos, à excepção do seu cão, Fu Manchu, a quem tratava carinhosamente por Fu, e quando a coisa azedava e tinha que o repreender, por Fu Manchu (um pouco como fazia a sua mãe, quando o tentava disciplinar).
Fu mantinha-o vivo com a pureza original canina que todos conhecem. A verdadeira dedicação, alguma comida e um pouco de atenção.
E-SHOPPING
Atónito, o
carteiro, retirou com cuidado o pacote da sua scooter, desligando-a em seguida.
Era preto, cor que nada é mas que tudo oculta. Assim era também a encomenda.
Cilíndrica, com um braço de comprimento, estava por demais bem embalada em
papel ébano. Sabia bem o que continha, e conhecia tão bem a destinatária. Tocou
à porta e esperou. Pouco. A porta entreabriu-se e da penumbra uma voz sussurrou:
- Entra,
Atónito, estava à tua espera.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
DARWIN
Havia um sítio no meio da cidade onde o progresso ainda não tinha chegado. Lá, os pássaros ainda sabiam onde poisar, e tinham a certeza quase absoluta de que as suas crias ainda estariam no ninho quando voltavam da busca de alimento. Lá, o orvalho matinal escorregava pelas vias normais, e os besouros caiam dos ramos sem se magoarem. Os catrapilas chegaram um dia e arrasaram tudo, e os capitalistas ali construíram suas moradias de luxo. Deixaram um par de árvores, para amostra. Os pássaros fugiram e os besouros evoluíram, pois deixaram de ter predadores e tiveram que passar a equilibrar-se melhor pois os que caiam quebravam as carapaças no asfalto. A população de besouros cresceu, colonizando secretamente o grosso interior dos troncos, comendo e copulando sem parar, até não haver espaço para mais. No dia em que a fina casca exterior cedeu, uma enorme nuvem de besouros caiu sobre a estrada, provocando uma colisão em cadeia sem feridos graves, mas com avultados danos materiais. As seguradoras tiveram enorme prejuízos e tiveram que despedir alguns trabalhadores, os quais se juntaram um dia em frente a um edifício-sede e apedrejaram as janelas com blocos da calçada. Um dos diretores da empresa veio à janela e cuspiu cá para baixo, comentando com os cudirectores: malditos insectos!
A escarreta acertou num director da PSP, que imediatamente deu ordem de prisão ao director, e que lhe dessem uns tabefes.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
ANACONDA
As suas amigas voltaram-se cada uma para seu lado, deixando-a entregue aos seus pensamentos. Com certeza já não estavam para a ouvir lamentar-se da vida, da dieta, do trabalho. E ela pensava, espremendo uma borbulha e olhando a Cristo na melhor margem do rio: O Júlio deixou-me, o Zé traiu-me, o Nuno trocou-me por um homem. Merda, quem me dera ser a Nicky Minaj. https://www.youtube.com/watch?v=LDZX4ooRsWs
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