sábado, 6 de setembro de 2014

GLH


As lojas estavam a fechar e o homem não se ia embora. De nariz encostado ao vidro, admirava as clientes do salão de beleza. Em breve alguém chamaria a polícia.
E que está o senhor aqui a fazer, perguntaria o agente.
Nada.
Então desande daqui, se faz favor.
Mas não estou a fazer nada de mal, estou só a olhar, o olhar não tira pedaço.
Depende, obstou o agente, depende do resguardo que as senhoras queiram manter. O direito á privacidade, percebe?
Percebo muito bem, senhor agente, então e o meu direito à liberdade e à livre circulação? Não sou nenhum tarado, estou simplesmente a ver.
Mostre-me então os seus documentos, por favor. O homem revistou os bolsos e revirou-os. Vazios. Não tenho, sou sem abrigo.
Então e a sua identificação?
Não tenho, já lhe disse.
O polícia começava a perder a paciência e endureceu o discurso. Tem que andar com a sua identificação.
Não tenho nada, fui assaltado.
Onde mora?
Não tenho casa, já lho tinha dito.
Como se chama?
Jesus de Nazaré.
A sério?
Não, estava a brincar, que interessa o nome que lhe dou?
É obrigatório ter um nome. Eu diria até que é um direito.
Pois olhe, senhor agente, eu não tenho casa, não tenho emprego, não tenho família, não tenho documentos, e deixei de ter nome. E ainda por cima, estou quase a deixar de ter cabelo.
Ah, sim, exclamou o polícia, tirando a boina, pois olhe que há um spray muito bom para isso, olhe aqui, e baixou a cabeça, mostrando uma calvície disfarçada com o que parecia tinta castanho escura.

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