quarta-feira, 3 de setembro de 2014

MELHOR AMIGO

Há já algum tempo que Paulo tomara a decisão de desaparecer por uns tempos. A complexa trama em que a sua vida se havia tornado não lhe deixava muitas hipóteses, e desgastara-o de tal forma que deixou, primeiro de trabalhar, depois de comer, depois de falar. Não estava doente, apesar da ausência de nutrientes, o que lhe parecia também pouco normal. Quando não se come, a tendência geral é para a enfermidade. Mas não ele. O seu corpo, bem como a sua mente, suportavam sem grande dificuldade a falta de refeições. Fora isto que o levara a comparar-se com Cristo, ou Siddartha, e a ter considerado ainda tornar-se peregrino, ideia que logo deixou cair pelo esforço que isso representaria. Além disso, não estava interessado em conhecer novas paragens ou pessoas. Nem as que conhecia lhe interessava ver.

Tinha-se afastado de quase tudo e todos, como de uma moléstia. De todos, à excepção do seu cão, Fu Manchu, a quem tratava carinhosamente por Fu, e quando a coisa azedava e tinha que o repreender, por Fu Manchu (um pouco como fazia a sua mãe, quando o tentava disciplinar).

Fu mantinha-o vivo com a pureza original canina que todos conhecem. A verdadeira dedicação, alguma comida e um pouco de atenção.

 



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