Chamavam-lhe Frankenstein, os
funcionários do hospício. Desde a sua conturbada e compulsiva admissão que decidira dar aos seus esbirros o maior
trabalho possível. Havia de lhes fazer a vida negra, tivessem ou não culpa do
seu internamento. Tanto lhe dava. Gritava a plenos pulmões desde que acordava
até que se deitava, exausto e rouco. Recuperava forças, dormindo como uma
pedra, e recomeçava pela madrugada. Quando o amordaçavam, para não perturbar os
outros hóspedes, contorcia-se violentamente até chegarem os tipos maiores com
as seringas. Inoculavam-lhe todo o tipo de sedativos legalmente permitidos, mas
estranhamente pouco ou nenhum efeito lhe faziam. Talvez fosse genético, sim,
devia ser isso, um tipo de imunidade superpoderosa aos anseolíticos herdada,
por exemplo da sua avó Isilda, que constava desmanchar os homens lá da terra à
porrada. Ou também podia ter sido do facto de a sua mãe ter passado a sua
gravidez a trabalhar nas minas de cobre, constantemente imersa em águas contaminadas
até às mamas. Após a sua última lobotomia, clinicamente urgente e inadiável,
perdeu a voz. Os cabrões dos médicos encontraram uma forma de o calar. Como já
não podia incomodar ninguém com barulho, escreveu uma surpreendente carta ao
director, com cópia para o Ministério, e para o gabinete do assessor do
secretário do presidente, onde eloquentemente explicava a sua situação, e em
como a última cirurgia lhe tinha devolvido a total lucidez, e se considerava
completamente recuperado e pronto para regressar à vida em sociedade. O despacho
foi dado, o pedido deferido e o homem libertado. Faustino, o Frankenstein dorme
na rua, e espalha a sua mensagem nas paredes caladas da cidade.
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