segunda-feira, 8 de setembro de 2014

FRANK


Chamavam-lhe Frankenstein, os funcionários do hospício. Desde a sua conturbada e compulsiva admissão  que decidira dar aos seus esbirros o maior trabalho possível. Havia de lhes fazer a vida negra, tivessem ou não culpa do seu internamento. Tanto lhe dava. Gritava a plenos pulmões desde que acordava até que se deitava, exausto e rouco. Recuperava forças, dormindo como uma pedra, e recomeçava pela madrugada. Quando o amordaçavam, para não perturbar os outros hóspedes, contorcia-se violentamente até chegarem os tipos maiores com as seringas. Inoculavam-lhe todo o tipo de sedativos legalmente permitidos, mas estranhamente pouco ou nenhum efeito lhe faziam. Talvez fosse genético, sim, devia ser isso, um tipo de imunidade superpoderosa aos anseolíticos herdada, por exemplo da sua avó Isilda, que constava desmanchar os homens lá da terra à porrada. Ou também podia ter sido do facto de a sua mãe ter passado a sua gravidez a trabalhar nas minas de cobre, constantemente imersa em águas contaminadas até às mamas. Após a sua última lobotomia, clinicamente urgente e inadiável, perdeu a voz. Os cabrões dos médicos encontraram uma forma de o calar. Como já não podia incomodar ninguém com barulho, escreveu uma surpreendente carta ao director, com cópia para o Ministério, e para o gabinete do assessor do secretário do presidente, onde eloquentemente explicava a sua situação, e em como a última cirurgia lhe tinha devolvido a total lucidez, e se considerava completamente recuperado e pronto para regressar à vida em sociedade. O despacho foi dado, o pedido deferido e o homem libertado. Faustino, o Frankenstein dorme na rua, e espalha a sua mensagem nas paredes caladas da cidade.

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