sexta-feira, 20 de novembro de 2015

PERPECTIVA








Muitos dizem que são seres inanimados, mas não são. São entidades vivas, únicas, férteis, belas, que fazem a maravilha de adultos e crianças, que decoram e constroem o mundo em que vivemos. Muito injusta a sua conotação negativa, que leva a que se lhes comparem seres humanos com características que não têm nem nunca poderiam ter, pois não pertencem de facto à espécie que destruirá a Terra – os calhaus dos homens. De facto, são provavelmente a única coisa que restará, cobrindo as suas sepulturas, como o vêm fazendo desde a pré história, já para não falar do mau uso que têm tido nos castigos que os homens impõe uns aos outros. E é tão curioso observar como se deixam levar pelo mar e pelas crianças, engrossando coleções e histórias nos seus pequenos bolsos. Quem nunca levou uma pedra para casa, que atire a primeira.






quinta-feira, 19 de novembro de 2015

IMPERIUM




No castelo de Vinqu´ard dorme inquieto o conde Moberg. Consta que enterrou dezenas de corpos, vítimas das pestes e doutras doenças, debaixo do soalho da ala norte, para aquecer os quartos com a decomposição destes. À noite, quando se apagam as luzes, por vezes ainda é possível ver a luminescência pelas janelas, que embora ténue, chega para lhe iluminar o caminho à casa de banho, onde vai urinar várias vezes por noite, pois tem a bexiga pequena, e não suporta a ideia de usar penico, nem a de ter alguém a remexer nos seus dejetos.






ÍCARO

A lenha estava a acabar, bem como os fósforos. A comida enlatada acabara já há alguns dias. Na tenda improvisada de troncos e folhas dormia-se muito mal. Praguejou contra o destino e contra si próprio, por ter passado uma vida sedentária, agarrado ao laptop, à tv, ao ipad e ao tablet. Não sabia sequer como se alimentar sem o microwave. Caminhar, nunca mais do que o percurso até ao carro. Imaginou por momentos como seria se tivesse os poderes de Ororo ou de Kurt Weil. Depois foi até à beira do lago, olhou para cima e levantou vôo.


O ESTEVES

Há já muito tempo que não tocava num piano. Deixara de tocar quando a doença lhe tirou as forças e a inspiração. E no entanto, o banquinho de madeira chamava por ele. Levantou-se a custo da poltrona, levou consigo o copo de malte e pousou-o em cima da madeira de mogno. Fez deslizar a enorme hérnia inguinal para  cima, e sentou-se cuidadosamente. Os dedos não lhe obedeceram, e por isso tocou em pensamento uma canção do Stevie Wonder. Quando acabou, fechou lentamente a tampa do teclado, e suspirou. A mulher entrou naquele momento e lançou-lhe um olhar de censura: maridinho, já se esqueceu que o médico lhe proibiu as fantasias?

terça-feira, 17 de novembro de 2015

MARLENE



O marido na tasca, e ela ali a trabalhar. Bem passada estava a hora da reforma, mas não dava para os medicamentos, e como nem tudo se cura só com mezinha, a galega senhora empregou-se no quiosque de um vizinho. Os velhos vinham todos os dias e babavam-se olhando as revistas, sem nunca terem coragem ou dinheiro para as comprar. E portanto elas iam envelhecendo e ficando amarelas do sol, que o pó sempre se ia sacudindo à sexta feira, quando limpava o quiosque. De todos os anos que lá trabalharia, pouco mais do que umas quantas patacas iria juntar. Mas sempre lhe dava para se arranjar na Páscoa e no Natal para ir à missa, e tentar que o consorte a acompanhasse. Longe iam os tempos em que o seu marido lhe sussurrava aos ouvidos- Cucha. Em vez disso tinha ali os velhos que vinham todos os dias e se babavam olhando as revistas.


PRAZERES SIMPLES

Orlando apreciava o peixe fresco, o marisco e as guarnições de enfeite através do vidro imaculado da montra. Ainda por cima jogava o Benfica na televisão, companhia perfeita para um belo repasto. Havia já muito tempo que não o fazia, comer fora. Era sempre tudo contado ao tostão, e nada sobrava para luxos ou prazeres, mesmo os simples. Mas olhar é de graça e não tira pedaço, como se costuma dizer, e deixou-se ficar mais um bocado. Não podia demorar  muito, pois o estômago começava a queixar-se, e o dele era particularmente implacável, por força de estar diariamente muito tempo à espera. Olhou o relógio, remexeu o bolso direito na esperança de que, por artes mágicas, ali se tivessem materializado uma ou duas notas de vinte, mas o único papel que lá tinha era uma receita do médico que aguardava vez para ser aviada, que nem para isso havia. Absorto nos seus pensamentos, nem sequer reparou nos empregados que o olhavam com algum desdém- cliente que não penetra não faz despesa nem dá gorjeta. Quando lhe começou a doer, olhou novamente para o pulso, fingiu estar atrasado e desatou a subir a rua em direção a casa.