sexta-feira, 5 de junho de 2015

LINHA AZUL 2


Anah esperava por Farouk para o almoço, ansiosa, na varanda que dava para a rua da frente. Não era costume ele atrasar-se, pois fazia da pontualidade uma questão de honra. Não raras eram as vezes em que, tendo ela tardado uns minutos com a refeição, ele lhe dava uma enorme reprimenda, discorrendo sobre sobre honra e compromisso, rotina e felicidade, deferência e lealdade. E ela fazia os possíveis para ir cumprindo. Hoje começava já a ficar nervosa. Ele tinha saído de manhã, livro debaixo do braço- esse livro que não lhe mostrava, e que andava a ler já há um par de semanas- carteira com o passe e uma nota de dez, e pouco mais. Mal sabia ela que ele se tinha sentado numa estação a acabar de ler o livro, e se distraiu com o passar dos comboios, até ser tarde demais para ir pegar ao serviço.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

HISTÓRIA

Vês, filho, era aqui que os antigos guardavam as bestas, disse o pai, pondo um ar solene. O filho olhava pasmado e imaginava o tamanho que deviam ter esses bichos, e quão grandes deviam ser as suas cabeças para não passarem pelos intervalos das colunas. Olhou para o pai, e este, procurando desfazer todas as suas dúvidas, rematou: Vês as dentadas que davam na pedra a tentar fugir. Diz-se que comiam vacas inteiras quase sem mastigar. O miúdo, já um bocado assustado, puxou a mão do homem para se irem embora. e ele acedeu: Ali mais à frente vamos ver uma capela cheia de caveiras.