Escrevo-te só para te dizer que não quero. Não quero
apaixonar-me por ti, e luto todos os dias contra isso. Alguém me disse que isso
não se controla, mas eu estou a tentar. Porque não quero. Não quero ter-te
sempre na cabeça, nem ver-te em todo o lado. Esta noite, apesar de saber que
vou sonhar contigo, vou combater isto de todas as formas possíveis, nem que
fique sem pregar olho, de vigia a uma ameaça invisível. É que queima e dói,
sabes? Sabes que me falta o ar, quando te vejo entrar? Sabes que quero que fiques
quando te mando embora? Sabes que tudo parece insonso comparado contigo? Sabes
que sinto que te perdi sem nunca te ter tido? Que fico às escuras de dia, e que
de noite não suporto o clarão da tua imagem que fica gravado nos meus olhos? Se
calhar nunca deste por isso, nem tal te passa pela cabeça. Pois a mim passa,
passa-me por cima, atropela-me como um comboio, e eu sem vontade de sair do
caminho, fico trucidado nos carris. Quem te pôs aqui tão tarde, quem te atravessou no meu
caminho, agora, logo agora?
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
DESEVOLUÇÃO
Os seus olhos são como uma máquina fotográfica. Tudo o que
neles vemos refletidos, fica também neles registado. O seu anfitrião, apesar de
grande, é de uma delicadeza animal. Ao contrário do que se diz, a animalização
dos humanos torna-os melhores, pois não há nada mais puro do que o espírito
animal. Com o evoluir da humanidade, e também com o crescimento e a
socialização, o homo sapiens vai esquecendo isto e deixa de os imitar. Deixa de
se espreguiçar, deixa de se tratar, de se limpar, de se conhecer, de
procrastinar, de meditar, de ser. Curiosa e simultaneamente, o homem tende a
rodear-se dos mais fofinhos animais, aos quais chama companheiros, de
estimação, e afasta-se cada vez mais dos da sua própria espécie. Em caso de
dúvida, consultem-se os que dormem com eles.
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