O vento fustigava as árvores e as pessoas que se abrigavam
como podiam nos apeadeiros dos autocarros. Excelentes proteções para os
utentes dos transportes públicos, as estruturas de ferro, alumínio e vidro solidamente chumbadas ao chão de betão e calçada. Completamente alheio a
tudo isto, o jovem caminhava sozinho a passos largos em direção à paragem do
autocarro para o Monte da Caparica. O chão parecia tremer sob o seu peso e a
sua imponente figura. Distraído mas determinado, acelerou o passo ao ver que já
se fazia tarde, olhos sempre fixos no chão. Quando terminava de trautear
o último verso de Bela Lugosi´s dead,
atravessou o vidro da paragem como uma locomotiva. Quase caiu, e ainda patinou um
pouco nos milhões de vidros espalhados pelo chão. Olhou para as mãos, limpas, endireitou-se, recuperou a tração nas botas, e retomou o seu caminho, negro nos seus pensamentos
musicais. Undead, undead, undead.
quarta-feira, 25 de março de 2015
CAÇADOR DE VAMPIROS 2
Disfarçado de vendedor de alhos, o caçador de vampiros
deslizou pela calçada. Bem calçado, para não escorregar quando fosse a hora da
carga, passeou pelos cafés da praça central, e parou quando reparou que um
dos esplanadeiros não projetava sombra no chão à sua frente. Perguntou-lhe as
horas, e quando este, convencido do seu disfarce humano, lhe respondeu que não
tinha relógio, as suas dúvidas desfizeram-se. Num movimento contínuo, pousou
o saco e cravou-lhe uma estaca no peito, fazendo cair o copo de ginger ale
ainda cheio sobre a mesa de alumínio. As pessoas em volta ajudaram a varrer as
cinzas e aproveitaram para comprar algumas cabeças da bendita hortícola. O
justiceiro já não espera nos becos, pois apesar de se apertar o cerco e alguns
dos dentuços estejam já atrás das grades, há-os cada vez em maior número, e
andam sedentos, sem medo e sem vergonha.
terça-feira, 10 de março de 2015
FURA VIDAS
Sem saber muito bem como nem porquê, Ernesto foi despedido
do seu emprego de fiel de armazém. Extinção do posto de trabalho, o que quer
dizer que ele foi posto na rua, mas os colegas não, e a empresa continua a
funcionar. Teve pena, pois já lá trabalhava há quase trinta anos, e gostava do
que fazia. Mas como nunca foi de baixar os braços, pegou no dinheiro da
indemnização e, contra a vontade da mulher, adquiriu um stock considerável de
artigos eróticos a um fabricante indiano e dedicou-se à venda ambulante. É
vê-lo todos os dias na baixa, a apregoar a mercadoria- Olhó brinquedo maroto, é
prá menina e pró menino, olhó rajá do mandingo, olhá boneca d´encher.
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