quarta-feira, 25 de março de 2015

MASSA EM BOTAS SENDRA


O vento fustigava as árvores e as pessoas que se abrigavam como podiam nos apeadeiros dos autocarros. Excelentes proteções para os utentes dos transportes públicos, as estruturas de ferro, alumínio e vidro solidamente chumbadas ao chão de betão e calçada. Completamente alheio a tudo isto, o jovem caminhava sozinho a passos largos em direção à paragem do autocarro para o Monte da Caparica. O chão parecia tremer sob o seu peso e a sua imponente figura. Distraído mas determinado, acelerou o passo ao ver que já se fazia tarde, olhos sempre fixos no chão. Quando terminava de trautear o último verso de Bela Lugosi´s dead, atravessou o vidro da paragem como uma locomotiva. Quase caiu, e ainda patinou um pouco nos milhões de vidros espalhados pelo chão. Olhou para as mãos, limpas, endireitou-se, recuperou a tração nas botas, e retomou o seu caminho, negro nos seus pensamentos musicais. Undead, undead, undead.

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