terça-feira, 14 de abril de 2015

URGÊNCIA


Rosalina acabara de sair do minimercado, interrompendo com a delicadeza possível a conversa com a vizinha de duas ruas abaixo. Contorcia-se a subir as escadas, e rezava baixinho, tentando não perder a compostura, sua imagem de marca conquistada ao longo dos anos, à custa dos vestidos bem engomados, cabelo bem arranjado e pintura bem desenhada. Mas o intestino não dava tréguas. Havia ocasiões em que a coisa aliviava durante uns segundos, com um contrair e afrouxar cíclico dos glúteos, e lhe permitia cruzar a meta da sua porta. Este não era um desses dias. O músculo bondoso parecia não funcionar, o seu sorriso amarelava a cada passo, e a descarga estava iminente. Quando finalmente meteu a chave no buraco, e começava a dar graças pela vitória, o carteiro pôs-lhe a mão no ombro:

- D. Rosalina, tem aqui uma carta registada, tem que ma assinar, se faz favor.

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