Rosalina acabara de sair do minimercado, interrompendo com a
delicadeza possível a conversa com a vizinha de duas ruas abaixo. Contorcia-se
a subir as escadas, e rezava baixinho, tentando não perder a compostura, sua
imagem de marca conquistada ao longo dos anos, à custa dos vestidos bem
engomados, cabelo bem arranjado e pintura bem desenhada. Mas o intestino não dava
tréguas. Havia ocasiões em que a coisa aliviava durante uns segundos, com um
contrair e afrouxar cíclico dos glúteos, e lhe permitia cruzar a meta da sua porta.
Este não era um desses dias. O músculo bondoso parecia não funcionar, o seu
sorriso amarelava a cada passo, e a descarga estava iminente. Quando finalmente
meteu a chave no buraco, e começava a dar graças pela vitória, o carteiro pôs-lhe
a mão no ombro:
- D. Rosalina, tem aqui uma carta registada, tem que ma
assinar, se faz favor.
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