Naquele dia fartou-se. Passaram-lhe pela cabeça pensamentos
macabros, de suicídio e de homicídio. Sobretudo, faltavam-lhe as forças para
zarpar. A âncora, demasiado pesada para puxar sozinha. As mentiras e a
mesquinhez, demasiado densas para navegar, como se um espesso nevoeiro toldasse
o horizonte. Tudo lhe parecia agora demasiado complicado, como se nunca tivesse
navegado. Deixou-se estar assim, parado, as ondas e as correntes a
arrastarem-no para onde queriam, mas sem o conseguirem levar. E ele sem saber
se ia ficar, se queria ficar. Maldito lugar. Tentou sacar da arma, mas esta nem
se mexeu, como se estivesse colada ao cabedal do coldre. Se ao menos tivesse
uma picareta, podia descer ao porão e abrir o casco, deixava-se lá ficar e
afundava com aquilo tudo. Nem cicuta tinha, que sempre era mais leve e rápida.
Quando os pensamentos sossegaram, o corpo cedeu também e
adormeceu no convés. Sonhou com outra vida, onde a paz e a beleza a
acompanhavam, e onde uma mão enorme e rugosa lhe pegou com cuidado e o
depositou numa cama de nuvens.