sexta-feira, 29 de setembro de 2017

ÂNCORA

foto de MJSpiff


Naquele dia fartou-se. Passaram-lhe pela cabeça pensamentos macabros, de suicídio e de homicídio. Sobretudo, faltavam-lhe as forças para zarpar. A âncora, demasiado pesada para puxar sozinha. As mentiras e a mesquinhez, demasiado densas para navegar, como se um espesso nevoeiro toldasse o horizonte. Tudo lhe parecia agora demasiado complicado, como se nunca tivesse navegado. Deixou-se estar assim, parado, as ondas e as correntes a arrastarem-no para onde queriam, mas sem o conseguirem levar. E ele sem saber se ia ficar, se queria ficar. Maldito lugar. Tentou sacar da arma, mas esta nem se mexeu, como se estivesse colada ao cabedal do coldre. Se ao menos tivesse uma picareta, podia descer ao porão e abrir o casco, deixava-se lá ficar e afundava com aquilo tudo. Nem cicuta tinha, que sempre era mais leve e rápida.

Quando os pensamentos sossegaram, o corpo cedeu também e adormeceu no convés. Sonhou com outra vida, onde a paz e a beleza a acompanhavam, e onde uma mão enorme e rugosa lhe pegou com cuidado e o depositou numa cama de nuvens.

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