quinta-feira, 22 de outubro de 2015

DE VELHO NOVO SE FAZ NOVO VELHO


Estava-se nas alturas dos santos populares, e o amor, como sempre, pairava no ar, diluído entre o cheiro das sardinhas, do couratos e do suor. Laurinda passava por uma rua semianimada, quando deparou com ele. Estava velho, mas não tão velho como ela. Notavam-se as rugas mas não se notavam tanto como as suas. O cabelo dele estava agora bastante menos farto. Ela já usava peruca (das baratas, ainda por cima). Quase não tinha barriga e mantinha o andar elegante, e o olhar enigmático que deslumbrava as esplanadas, dezenas de mirones que parecia terem sido ali postos apenas para o ver passar. Ela suspirou, como da primeira vez que o viu. Um suspiro tão profundo que receou que ele tivesse notado. O seu coração acelerou quando se cruzaram.Ele passou e não a reconheceu. Ela não se voltou para trás para o chamar.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

GRANDE LATA


 

Afrodite passava férias num país mediterrâneo bem seu conhecido. Como em qualquer país mediterrâneo, rico em festas e bailaricos, a exuberância dos naturais era reconhecida internacionalmente.
Depressa encontrou um grupo de amigos que a levaram para o quente centro da hospitalidade. Por via mais ou menos ilegais (note-se o mais ou menos porque toda a gente fazia o mesmo quando podia), uma lata de cerveja parou nas mãos de Zeus. Ao abri-la, incauto, o jovem cortou-se numa aba.
Com toda a ternura, Afrodite tratou dele, e nesse gesto descobriu o amor, um amor de que não estava à espera, mas que no seu íntimo procurava desde sempre.
O destino, hábil em surpresas e inesperados, coincidiu com o tempo que passava, e sua mão larápia transformou para sempre as suas vidas.