quinta-feira, 16 de abril de 2015

Num belo recanto de um magnífico jardim, os casais namoram, os estudantes estudam, os eruditos lêem, os jardineiros jardinam, as vizinhas quadrilham, os larápios espreitam. Mas ninguém dá pelo corpo inconsciente depositado nos degraus. Pensarão que dorme, ou que relaxa, ou que recupera de uma ou várias noites de borga, ou que faz tudo isto ao mesmo tempo. Ninguém estranha a sua postura encarquilhada, nem a ausência de movimento de maré no seu tórax, nem o odor que lentamente se começa a desprender das suas partes privadas. 
Em Portugal, em dois mil e quinze, as pessoas são menos que pó.

terça-feira, 14 de abril de 2015

URGÊNCIA


Rosalina acabara de sair do minimercado, interrompendo com a delicadeza possível a conversa com a vizinha de duas ruas abaixo. Contorcia-se a subir as escadas, e rezava baixinho, tentando não perder a compostura, sua imagem de marca conquistada ao longo dos anos, à custa dos vestidos bem engomados, cabelo bem arranjado e pintura bem desenhada. Mas o intestino não dava tréguas. Havia ocasiões em que a coisa aliviava durante uns segundos, com um contrair e afrouxar cíclico dos glúteos, e lhe permitia cruzar a meta da sua porta. Este não era um desses dias. O músculo bondoso parecia não funcionar, o seu sorriso amarelava a cada passo, e a descarga estava iminente. Quando finalmente meteu a chave no buraco, e começava a dar graças pela vitória, o carteiro pôs-lhe a mão no ombro:

- D. Rosalina, tem aqui uma carta registada, tem que ma assinar, se faz favor.