Escrevo-te só para te dizer que não quero. Não quero
apaixonar-me por ti, e luto todos os dias contra isso. Alguém me disse que isso
não se controla, mas eu estou a tentar. Porque não quero. Não quero ter-te
sempre na cabeça, nem ver-te em todo o lado. Esta noite, apesar de saber que
vou sonhar contigo, vou combater isto de todas as formas possíveis, nem que
fique sem pregar olho, de vigia a uma ameaça invisível. É que queima e dói,
sabes? Sabes que me falta o ar, quando te vejo entrar? Sabes que quero que fiques
quando te mando embora? Sabes que tudo parece insonso comparado contigo? Sabes
que sinto que te perdi sem nunca te ter tido? Que fico às escuras de dia, e que
de noite não suporto o clarão da tua imagem que fica gravado nos meus olhos? Se
calhar nunca deste por isso, nem tal te passa pela cabeça. Pois a mim passa,
passa-me por cima, atropela-me como um comboio, e eu sem vontade de sair do
caminho, fico trucidado nos carris. Quem te pôs aqui tão tarde, quem te atravessou no meu
caminho, agora, logo agora?
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
DESEVOLUÇÃO
Os seus olhos são como uma máquina fotográfica. Tudo o que
neles vemos refletidos, fica também neles registado. O seu anfitrião, apesar de
grande, é de uma delicadeza animal. Ao contrário do que se diz, a animalização
dos humanos torna-os melhores, pois não há nada mais puro do que o espírito
animal. Com o evoluir da humanidade, e também com o crescimento e a
socialização, o homo sapiens vai esquecendo isto e deixa de os imitar. Deixa de
se espreguiçar, deixa de se tratar, de se limpar, de se conhecer, de
procrastinar, de meditar, de ser. Curiosa e simultaneamente, o homem tende a
rodear-se dos mais fofinhos animais, aos quais chama companheiros, de
estimação, e afasta-se cada vez mais dos da sua própria espécie. Em caso de
dúvida, consultem-se os que dormem com eles.
terça-feira, 17 de outubro de 2017
SIMPLES
Tudo o que eles queriam era brincar e fazer de conta. Os
adultos, por seu lado, só viam trabalho. E oportunidades para trabalhar, mesmo
que se chamasse brincadeira estruturada. Como se a brincadeira em si própria não
fosse coisa séria. Eles só precisavam de alguém que os fizesse sentir seguros,
que os protegesse, os alimentasse, os amparasse. Se os vissem com olhos de ver,
poderiam constatar que eles sabem brincar, eles sabiam bem o que fazer a cada
momento, como interagir com as árvores e os bichos. Certo dia, fartaram-se,
fundiram-se com a grande Mãe, e o pânico foi geral. Fizeram-se planos e
projetos de intervenção pessoais e coletivos, que uma doença grave se tinha
apoderado daquelas crianças. Que só queriam brincar, que não prestavam atenção,
que não respeitavam os adultos, os seus limites e limitações, os seus planos e
projeções.
Mas não serviu de nada, pois quando o tempo passou, eles já
lá não estavam. Tinham fugido pelos bosques, correndo, saltando, cantando, brincando,
felizes e alheios à adultização.
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
MAEROÍNA
Há muito reformada, Florinda tecia para sustentar os filhos, todos presos nas malhas das escolhas que fizeram. Vivia com as baratas, que
escolhia não ver. Ajudavam-na a cozinhar, indicavam-lhe a direção do
frigorífico, da despensa, e do caixote do lixo. E tomavam banhos demorados no
ralo do lava-loiças.
À noite, sempre antes da novela, e sob o efeito do exaltante
amor materno, ligava para todos a saber as últimas novidades, a contar as
últimas tragédias. Obrigada, despedia-se, sempre em bom português, obrigada por
terem atendido o telefone.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
ÂNCORA
Naquele dia fartou-se. Passaram-lhe pela cabeça pensamentos
macabros, de suicídio e de homicídio. Sobretudo, faltavam-lhe as forças para
zarpar. A âncora, demasiado pesada para puxar sozinha. As mentiras e a
mesquinhez, demasiado densas para navegar, como se um espesso nevoeiro toldasse
o horizonte. Tudo lhe parecia agora demasiado complicado, como se nunca tivesse
navegado. Deixou-se estar assim, parado, as ondas e as correntes a
arrastarem-no para onde queriam, mas sem o conseguirem levar. E ele sem saber
se ia ficar, se queria ficar. Maldito lugar. Tentou sacar da arma, mas esta nem
se mexeu, como se estivesse colada ao cabedal do coldre. Se ao menos tivesse
uma picareta, podia descer ao porão e abrir o casco, deixava-se lá ficar e
afundava com aquilo tudo. Nem cicuta tinha, que sempre era mais leve e rápida.
Quando os pensamentos sossegaram, o corpo cedeu também e
adormeceu no convés. Sonhou com outra vida, onde a paz e a beleza a
acompanhavam, e onde uma mão enorme e rugosa lhe pegou com cuidado e o
depositou numa cama de nuvens.
MOMENTO
Ela apaixonou-se por ele enquanto ele lhe enrolava um
cigarro. O coração nem ofereceu resistência. A agilidade dos dedos dele, bem
como a firmeza tranquila dos seus gestos arrebataram-na, e deixaram-na
suspensa. Tirou os óculos e pareceu-lhe que tudo à volta estava como que
debaixo de uma fina chuva de champanhe e liberdade. Quando a língua dele
humedeceu a cola da mortalha, sentiu um tremor, provavelmente o primeiro.
Deixou-se ir, cavalgando na emoção e nos olhos azuis do rapaz, e o fumo
soube-lhe para sempre a framboesas.
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