quinta-feira, 22 de outubro de 2015

DE VELHO NOVO SE FAZ NOVO VELHO


Estava-se nas alturas dos santos populares, e o amor, como sempre, pairava no ar, diluído entre o cheiro das sardinhas, do couratos e do suor. Laurinda passava por uma rua semianimada, quando deparou com ele. Estava velho, mas não tão velho como ela. Notavam-se as rugas mas não se notavam tanto como as suas. O cabelo dele estava agora bastante menos farto. Ela já usava peruca (das baratas, ainda por cima). Quase não tinha barriga e mantinha o andar elegante, e o olhar enigmático que deslumbrava as esplanadas, dezenas de mirones que parecia terem sido ali postos apenas para o ver passar. Ela suspirou, como da primeira vez que o viu. Um suspiro tão profundo que receou que ele tivesse notado. O seu coração acelerou quando se cruzaram.Ele passou e não a reconheceu. Ela não se voltou para trás para o chamar.

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