terça-feira, 17 de novembro de 2015

PRAZERES SIMPLES

Orlando apreciava o peixe fresco, o marisco e as guarnições de enfeite através do vidro imaculado da montra. Ainda por cima jogava o Benfica na televisão, companhia perfeita para um belo repasto. Havia já muito tempo que não o fazia, comer fora. Era sempre tudo contado ao tostão, e nada sobrava para luxos ou prazeres, mesmo os simples. Mas olhar é de graça e não tira pedaço, como se costuma dizer, e deixou-se ficar mais um bocado. Não podia demorar  muito, pois o estômago começava a queixar-se, e o dele era particularmente implacável, por força de estar diariamente muito tempo à espera. Olhou o relógio, remexeu o bolso direito na esperança de que, por artes mágicas, ali se tivessem materializado uma ou duas notas de vinte, mas o único papel que lá tinha era uma receita do médico que aguardava vez para ser aviada, que nem para isso havia. Absorto nos seus pensamentos, nem sequer reparou nos empregados que o olhavam com algum desdém- cliente que não penetra não faz despesa nem dá gorjeta. Quando lhe começou a doer, olhou novamente para o pulso, fingiu estar atrasado e desatou a subir a rua em direção a casa.

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