Orlando apreciava o peixe fresco, o marisco e as guarnições
de enfeite através do vidro imaculado da montra. Ainda por cima jogava o
Benfica na televisão, companhia perfeita para um belo repasto. Havia já muito
tempo que não o fazia, comer fora. Era sempre tudo contado ao tostão, e nada
sobrava para luxos ou prazeres, mesmo os simples. Mas olhar é de graça e não
tira pedaço, como se costuma dizer, e deixou-se ficar mais um bocado. Não podia
demorar muito, pois o estômago começava
a queixar-se, e o dele era particularmente implacável, por força de estar
diariamente muito tempo à espera. Olhou o relógio, remexeu o bolso direito na
esperança de que, por artes mágicas, ali se tivessem materializado uma ou duas
notas de vinte, mas o único papel que lá tinha era uma receita do médico que
aguardava vez para ser aviada, que nem para isso havia. Absorto nos seus
pensamentos, nem sequer reparou nos empregados que o olhavam com algum desdém-
cliente que não penetra não faz despesa nem dá gorjeta. Quando lhe começou a
doer, olhou novamente para o pulso, fingiu estar atrasado e desatou a subir a
rua em direção a casa.
Sem comentários:
Enviar um comentário