segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SERENATA

Sentado tocando seu acordeão, Anselmo parece não perceber as jovens que o observam da esplanada, e se calhar nem sequer ouve os seus piropos. Está concentradíssimo, e as notas saem-lhe com uma cadência extraordinária, conseguindo por vezes elaborar transições imperceptíveis entre temas, mantendo uma sonoridade contínua e inebriante. Tão focado está que nem consegue largar o instrumento ao ver passar a mulher dos seus sonhos. Os seus dedos parecem fundir-se com as teclas e os botanitos da máquina, e a própria música, sua madrasta, parece troçar dele, enquanto a sua vida se afasta pela calçada.

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