terça-feira, 2 de setembro de 2014

DARWIN


Havia um sítio no meio da cidade onde o progresso ainda não tinha chegado. Lá, os pássaros ainda sabiam onde poisar, e tinham a certeza quase absoluta de que as suas crias ainda estariam no ninho quando voltavam da busca de alimento. Lá, o orvalho matinal escorregava pelas vias normais, e os besouros caiam dos ramos sem se magoarem. Os catrapilas chegaram um dia e arrasaram tudo, e os capitalistas ali construíram suas moradias de luxo. Deixaram um par de árvores, para amostra. Os pássaros fugiram e os besouros evoluíram, pois deixaram de ter predadores e tiveram que passar a equilibrar-se melhor pois os que caiam quebravam as carapaças no asfalto. A população de besouros cresceu, colonizando secretamente o grosso interior dos troncos, comendo e copulando sem parar, até não haver espaço para mais. No dia em que a fina casca exterior cedeu, uma enorme nuvem de besouros caiu sobre a estrada, provocando uma colisão em cadeia sem feridos graves, mas com avultados danos materiais. As seguradoras tiveram enorme prejuízos e tiveram que despedir alguns trabalhadores, os quais se juntaram um dia em frente a um edifício-sede e apedrejaram as janelas com blocos da calçada. Um dos diretores da empresa veio à janela e cuspiu cá para baixo, comentando com os cudirectores: malditos insectos!
A escarreta acertou num director da PSP, que imediatamente deu ordem de prisão ao director, e que lhe dessem uns tabefes.

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