quarta-feira, 20 de maio de 2015

CABIDELA

Rodeada de pessoas que não conhecia, Doina avançou, como lhe mandaram. Puxando uma mala que não era a sua, cheia de coisas que não eram as suas coisas, deu por si a ter pensamentos que não eram seus,  e pensou como seria bela, a ideia de fugir. Apenas a ideia, sem nada mais a acompanhar. Um tipo de fantasia passageira, como uma pequena  constipação. Ainda lhe pareceu ver a silhueta do namorado ao longe, passeando entre as carruagens, cruzando-se com as silhuetas de outros jovens. Pareceu-lhe que dizia que não com o dedo. Que não tentasse nada, que tinha mais a perder do que a ganhar. Mas ganhou, um lugar mesmo à janela, cruelmente guardado para si. Para que pudesse despedir-se melhor da sua terra, enquanto a máquina a puxava para longe de tudo. E quando cruzou a fronteira para o país vizinho, foi como se a rasgassem ao meio, e o seu sangue vertido num alguidar.

Sem comentários:

Enviar um comentário