segunda-feira, 11 de maio de 2015

CAMANÉ

Naquele dia alguém chamou a polícia. Algum vizinho, farto de levar com o cheiro a fumo frio nos canos da casa de banho, ou algum amigo invejoso que se fartou de não ser convidado. O Alberto foi à varanda e gritou isso mesmo lá para dentro: Vem aí a polícia, Camané, refundam essa merda. Por ser pedonal e ter postes no chão, os bófias subiam a rua a pé, e parecia nem sequer virem muito depressa. Mas vinham lá a casa, de certeza.
Lesto, Alberto veio para dentro, e correu para a cozinha, onde acendeu o fogão e pôs uma frigideira de óleo ao lume. Imperturbado com os gritos do pessoal, aflito, a esconder tudo o que fosse substâncias ilegais, tirou metodicamente os choquinhos do frigorífico e desatou a fritá-los mal o óleo aqueceu, espirrando bancada, chão e paredes. Mas agora é que vais cozinhar, caralho?, gritou indignado Camané, o dono da casa, enquanto escondia os cachimbos dentro dos toalhões de banho. Alberto seguia pondo à mesa à pressa.
A campainha não tardou a tocar, e sentaram-se todos os quatro, a saber, o Camané, o Velhinho, o Valentim, e a Marta, que agora se começava a arrepender de ter vindo. Ligaram a televisão num canal generalista, onde uma tipa qualquer berrava aos concorrentes umas perguntas sobre Geografia, e fizeram os possíveis por se aprumar.
Quem acabou por ir abrir a porta, de avental à cintura, foi o Alberto, com um copo de vinho tinto na mão. Boas noites dadas, os dois agentes foram entrando e deram uma olhadela aos convivas. O Alberto fingiu ser o dono da casa, e atraiu-os para a cozinha, de onde o fedor a fritos inundava o resto da residência. Sentou-os à mesa com um copinho para cada um, serviu-lhe choquinhos fritos com coentros e arroz de passas, e no final uma aguardente velha. Passado meia hora, como se nada fosse, os polícias vieram dizer adeus à sala, onde o grupo fingia extrema atenção ao questionário televisivo, e saíram. Os amigos levantaram-se logo a seguir, ainda muito brancos e foram saudar o amigo mais velho: Foda-se, Alberto, tu sabias mesmo o que estavas a fazer, ao que este replicou que nem por isso, os últimos chocos tinham saído um bocado queimados.

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