quarta-feira, 20 de maio de 2015

CANIS VITAE

O velho deambulou toda a manhã pelas ruas do monte, a ver se alguém lhe dava alguma coisita de comer. Alguns enxotaram-no, mas poucos. A maior parte ignorou-o, como se fosse invisível. Pudera, que com o passar dos anos, as maleitas que carregava- sobretudo a falta de dentes- despiram-no completamente do seu ar feroz. Até os bichanos lhe perderam o respeito, e olhavam para ele com desdém, que hoje em dia as pessoas parece que gostam mais desses infiéis do que dos da sua espécie. Ou talvez não, talvez esteja enganado, e seja só mais um dos pensamentos solitários que lhe assoberbam os quadris enfraquecidos. De qualquer das formas, decidiu tentar acabar com a vida. Dirigiu-se conscientemente para uma estrada que sabia ter maior movimento, e esperou junto ao cruzamento. Quando viu ao longe o que lhe pareceu um veículo, preparou-se para o fim. Quando lhe pareceu que era o momento, saltou para o meio da estrada. Os pneus chiaram, e sentiu a morte a chegar devagarinho. Quando abriu os olhos, deu com o nariz encostado ao plástico cinzento do párachoque de um carro. Ouviu o dono sair lá de dentro, e dizer com pena- coitadinho do cão, anda perdido, e uma voz de mulher- não anda nada, é mas é um rafeiro aí da rua.
Com pena do bicho, o homem pegou-lhe, e ele suspirou de alívio e sorriu de contente. Talvez o levassem para uma casa, onde lhe dariam um banho quente e perfumado, e uma bela dose de trinca com umas farripas de carne. Neste pensamento ficou e adormeceu, até sentir o carro parar, e tudo acabar num ápice. Ouviu muitos cães a ladrar, dois homens a falar: Pronto, amigo, assine aqui, está entregue. E viu o sol aos quadradinhos até ao fim dos seus dias.

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