Às vezes conhecemos pessoas que nos agradam, que nos são
indiferentes, ou de quem não gostamos. O Marinho não encaixava em nenhuma
destas categorias. Sempre bêbado, nunca lhe vi um dia igual. Hoje bem disposto
e falador, envergonhando as pessoas na rua; Amanhã estará macambúzio, calado e
distante. Noutro dia ainda, uma mistura dos dois temperamentos. Às vezes
ouvia-o defender acerrimamente os direitos gays- dos barrons, como ele dizia- e
no dia a seguir queria matá-los a todos, que essa gente não prestava. Tanto
perdia uma tarde inteira a cortejar um farrusco com as suas mãos finas, como
pontapeava qualquer bicho que lhe aparecesse pela frente. Nunca soube o que
fazia, pois tanto parecia um doutor, calça vincada e camisa com gravata, como
um trolha, ou ainda um catequista- nestes dias envergava uns calções azuis
escuros e uma camisola branca de gola alta muito justa, e usava o cabelo penteado
para trás com risco ao meio. Não posso dizer que gostava dele nem que deixava
de gostar. Mas tão pouco me era indiferente. Era aliás muito difícil passar
despercebido. Deixei de o ver depois do vinte e cinco de Abril, ninguém sabe
para onde foi. Era um tipo estranho, o Marinho Marioneta.
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