quarta-feira, 20 de maio de 2015

MARIONETA

Às vezes conhecemos pessoas que nos agradam, que nos são indiferentes, ou de quem não gostamos. O Marinho não encaixava em nenhuma destas categorias. Sempre bêbado, nunca lhe vi um dia igual. Hoje bem disposto e falador, envergonhando as pessoas na rua; Amanhã estará macambúzio, calado e distante. Noutro dia ainda, uma mistura dos dois temperamentos. Às vezes ouvia-o defender acerrimamente os direitos gays- dos barrons, como ele dizia- e no dia a seguir queria matá-los a todos, que essa gente não prestava. Tanto perdia uma tarde inteira a cortejar um farrusco com as suas mãos finas, como pontapeava qualquer bicho que lhe aparecesse pela frente. Nunca soube o que fazia, pois tanto parecia um doutor, calça vincada e camisa com gravata, como um trolha, ou ainda um catequista- nestes dias envergava uns calções azuis escuros e uma camisola branca de gola alta muito justa, e usava o cabelo penteado para trás com risco ao meio. Não posso dizer que gostava dele nem que deixava de gostar. Mas tão pouco me era indiferente. Era aliás muito difícil passar despercebido. Deixei de o ver depois do vinte e cinco de Abril, ninguém sabe para onde foi. Era um tipo estranho, o Marinho Marioneta.

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