No café da esquina, o dono teimava em não acorrentar o cão,
pelo que este montava guarda na esplanada e só deixava passar quem muito bem
entendia. Ignoro qual o critério que utilizava, mas que era eficiente, era. Só
entravam os clientes habituais, um ou outro mais destemido, ou ainda aqueles
que já estavam marcados, ou seja, que ele já mordera. Como se o ritual
geralmente executado no gémeo da perna mais próxima tivesse carácter de
submissão vinculativa, e daí em diante tivessem livre passe.
Até o dono da papelaria ao lado, imponente alfa da espécie
humana, ex-fuzileiro, se furtava às delícias pasteleiras do vizinho, com medo
da fera.
Este era, todavia, um cão muito especial, pois certo dia,
quando alguém chamou a polícia e esta veio numa carrinha azul, armada até aos
dentes, o fiel porteiro prostrou-se na calçada e ignorou completamente as
fardas, que entraram e saíram sem que o bicho lhes passasse cavaco. Nem
pestanejou, o cabrão.
Nesse dia, claro está, a recompensa foi maior, e a astúcia
do animal foi recompensada com uma voluptuosa rótula de vaca. Cão lindo, disse
o dono, afagando-lhe a testa maciça.
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