terça-feira, 18 de novembro de 2014

TASCA


Anselmo volta para casa pela linha do comboio, a qual parece interromper-se debaixo dos seus pés. Às costas leva o acordeão cansado trazido da Guiné, dos tempos bons, de quando era novo. Sabe que quando chegar a casa, a menopausa da mulher não lhe vai dar tréguas, sabe que não vai ter o jantar à sua espera, sabe que vai dormir outra vez no sofá, e sabe que os filhos não vão estar em casa para aligeirar o serão. Os beijos antes de ir para a cama, as boas noites e os bons dias já deixaram de se dar há alguns anos. Mas ele nem sequer pensa nisso, não lhe faz falta, passa os dias anestesiado pelo álcool, pela bisca e pela tristeza.

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