quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O BAILARINO


A reforma que foi buscar aos correios deu-lhe para comprar uns óculos escuros, um casaco e uns sapatos novos, que os últimos já não aguentavam mais remendos. E para mais nada. Ao menos ia bem vestido. O que ia comer no resto do mês logo se veria, um dia em casa da filha, outro na vizinha do lado, outro fiado na tasca do Manel. O que importava agora é que ia bem posto. O baile no centro de dia começava daí a pouco, e as matronas esperavam já por ele, sentadas nas poltronas de napa vermelha. Havia quem dissesse que ele era o melhor dançarino lá da terra, e talvez fosse. Com o maior dos respeitos, tirava-as para o meio da sala e guiava-as, mantendo a distância dos braços, que para encostos não havia muita receptividade. E algumas sonhavam com ele sem ele saber, que as levava a viajar por terras distantes, onde as pessoas se vestiam com túnicas, e os mercados se inundavam com cheiros e cores estranhas.

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