sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O GUARDIÃO


 
- O que é que queres, ó filho da puta, vais ver que vou aí abaixo e dou-te cabo dos cornos, ó cabrão! Volta mas é prá pocilga donde viestes, lá pró pé da porca da tua da mãe, e do boi do teu pai. Vai pó caralho senão inda levas com um vaso na cabeça! À merda, pá!
Era geralmente assim que o Sousa, diligente porteiro da residência familiar expulsava os indesejáveis vendedores, porteiros, cobradores, e outros da mesma raça. Era o mais novo de sete irmãos, todos doutores menos ele. A moleirinha não lhe deu para mais do que a quarta classe mal tirada, mas em desembaraço e língua ninguém se lhe comparava. Depois da última passagem por Custóias, por ter insultado um cabo da gnr, os manos e as respectivas e mui respeitosas esposas concordaram em deixá-lo viver com eles, num quarto de arrumos, e encarregá-lo de vigiar as entradas e saídas, bem como de todos os trabalhos de manutenção e bricolagem. Vigiava da varanda dia e noite, e não passava um dia sem que ele cumprimentasse alguém à sua maneira muito peculiar, e era ali no bairro bem ou mal conhecido por isso, consoante o ponto de vista.
- Entra lá e despacha-te a deixar o correio, ó meu paneleiro de merda, e põe-te logo a milhas, qu´isto aqui é a casa dos Sousa, gente fina, ó cabrão! Ouviste?

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