quinta-feira, 28 de agosto de 2014

DESAJUSTE


 
Nenhum dos rapazes fez o que os pais esperavam. Não estudavam para médicos, engenheiros, arquitectos, padres, nem sequer para professores. Estavam todos numa escola esquisita, num bairro velho e degradado, onde os professores não usavam gravata e falavam com os alunos de igual para igual. Havia até um que nas primeiras aulas lambia ostensivamente o giz dos dedos, até que alguém lhe perguntasse porque o fazia, e daí se partisse para uma discussão sobre manias pouco ortodoxas. Os pais repreendiam-nos quando chegavam a casa, invariavelmente fora de horas e anestesiados. Não muito, para eles o suficiente para ainda aproveitarem para, no conforto dos seus quartos, comporem ou escreverem mais uma coisita, aproveitar a ampliação dos sentidos. E ganhavam uns troquitos na rua, a alegrar as pessoas com a sua arte, perante o olhar reprovador de algumas mães mais conservadoras.

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